Opinião: Alberto Castro

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Fotografia: Valdrin Xhemaj/EPA
Fotografia: Valdrin Xhemaj/EPA

A vida é essencial. Pouco adianta morrer rico! A pressão para reabrir a economia pode levar-nos a olvidar que o caminho está longe de ser sustentável

Achatar! Nunca uma palavra tão chata se tornou tão popular. Todos somos peritos no processo de achatamento da curva. Para já, parece que fomos bem-sucedidos, embora a chata da curva lhe tenha ganhado o gosto, mantendo-se chata quando, agora, a queríamos descendente. Ou talvez não: desde que fossem poucos os infetados a requerer hospitalização, até que não seria mau se crescesse, ajudando a criar a imunidade de grupo ou de rebanho, como alguns, mais dados à pastorícia, gostam de a designar. Como só se sabe se é preciso tratamento hospitalar depois, é melhor não fazer experiências: o preço a pagar pode ser demasiado alto, que o diga a Suécia.

Este é um tempo de curvas. Tão logo se achata uma, logo surgem outras candidatas a tratamento. O exercício de controlo da pandemia era essencial para garantir que o sistema de saúde não “rebentava” e a economia sobrevivia. Como noutras terapias, também esta tem efeitos secundários, perversos uns, positivos outros: a economia ficou mal, o clima melhorou. A curva da economia (emprego; crescimento) caiu a pique. Já a saúde do clima estava tão má que, mesmo a descida nas emissões, não deu alta ao paciente: qualquer pequena recaída pode reconduzir-nos a uma trajetória fatídica.

É tempo de criar um ciclo virtuoso, acabando com a antinomia artificial “economia-clima”: se o dinheiro é importante, a vida é essencial. Pouco adianta morrer rico! A pressão para reabrir a economia (achatar as suas curvas) pode levar-nos a olvidar que o caminho que temos vindo a percorrer está longe de ser sustentável.

É complexo achatar, ao mesmo tempo, as várias curvas. É um sistema de equações simultâneas complicado: manter a pandemia sob controlo (atender aos mais frágeis: doentes e velhos); reabrir a economia (atender aos mais frágeis: desempregados e pobres); controlar os danos climáticos (atender aos mais frágeis: todos nós e, sobretudo, aqueles que recebem a “herança” – os mais jovens e os nascituros). Exercício difícil: para o resolver, é melhor não confiar, só, nos governos e nas políticas.

 

Alberto Castro, economista e professor universitário

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