Ações da Boeing descolam com o regresso do 737 MAX

A 29 de outubro de 2018, um avião que voava pela transportadora indonésia Lion Air caiu no Mar de Java, apenas 13 minutos após a descolagem do Aeroporto Internacional de Jacarta, provocando a morte de todos os 189 passageiros e membros da tripulação a bordo. Menos de cinco meses depois, a 10 de março de 2019, o voo 302 da Ethiopian Airlines levantou de Addis Ababa International com 157 pessoas a bordo. Seis minutos depois, o aparelho caiu e não houve sobreviventes. Ambos os acidentes envolveram aviões novos e ocorreram momentos após a descolagem. As duas ocorrências envolveram o mesmo modelo de aeronave: o 737 MAX da Boeing.

O 737 MAX é a versão mais recente do avião de transporte de passageiros mais vendido de todos os tempos, contando até agora mais de 10,500 unidades entregues a companhias aéreas espalhadas por todo o mundo. Ao longo dos últimos 50 anos, surgiram várias edições do 737, com estruturas alongadas, asas redesenhadas e turbofans maiores e mais potentes do que os antigos motores a jato. Também a sua capacidade aumentou dos originais 85 passageiros para o atual máximo de 215. Tantas mudanças, realizadas sobre uma estrutura com um legado de 50 anos, significam que a capacidade do último modelo 737 se manter no ar depende de um software sofisticado, cuja principal função é compensar o seu equilíbrio deficiente.

Após os acidentes da Lion Air e da Ethiopian Airlines, os primeiros relatos das equipas de investigação, que, em ambos os casos, operaram em parceria com a Autoridade Federal Americana de Aviação (FAA), apontaram o erro humano como a causa mais provável. No entanto, ficou desde logo evidente que o verdadeiro motivo era uma anomalia do software e, por isso, as companhias aéreas a nível global começaram a deixar em terra as suas frotas 737 MAX. As encomendas foram canceladas ou colocadas em espera e, finalmente, a 26 de novembro de 2019, a FAA revogou a autorização da Boeing para emitir certificados de aeronavegabilidade para o 737 MAX.

O impacto do coronavírus na indústria do turismo foi brutal. De navios de cruzeiro a hotéis, 2020 foi o ano mais desafiante de que se tem memória. Também os fabricantes de aeronaves foram dos que mais sentiram os efeitos da pandemia, devido ao cancelamento de pedidos por parte de companhias aéreas em dificuldades e ao não aparecimento de novas oportunidades de negócio. Para a Boeing, a crise foi amplificada pelo facto de a versão mais recente do seu produto mais vendido ter perdido a licença de voo, o que afetou seriamente a reputação da empresa e chegou até a ameaçar a sua futura viabilidade. No entanto, depois de dois anos muito difíceis, durante os quais o valor das suas ações caiu quase 70%, o vento finalmente mudou e parece bonançoso para a gigante americana.

Em novembro último, a FAA declarou que o avião é seguro e que pode voltar a voar, esperando-se que outros reguladores sigam o exemplo em breve. Coroando a sequência de boas notícias, a Ryanair, a maior companhia aérea de baixo custo da Europa, encomendou 75 novos aviões 737 MAX. Este pode ser o início da reabilitação da aeronave e um regresso à normalidade para a Boeing, já que os investidores também reagiram à sequência de boas notícias e começaram a descontar as perspetivas mais promissoras, com o valor das ações a subir mais de 60% nas últimas cinco semanas, demonstrando confiança no futuro da empresa.

*Analista sénior da ActivTrades

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