"Aconteceu porque sou uma mulher"

Há políticos que querem ser o centro das notícias e políticos que preferem ser reconhecidos pelos temas e ideias a que se dedicam. A Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, está claramente no segundo grupo. Por isso é que aceitou sentar-se num sofá lateral, no ridículo incidente das cadeiras com Charles Michel e Recep Erdogan ocorrido no início de abril na Turquia, e por isso é que não deixou o assunto cair no esquecimento.

Quando afirmou perante os eurodeputados, na semana passada, que o "sofagate" de Ancara "aconteceu porque sou uma mulher", von der Leyen não estava a chamar para si os holofotes. Estava a colocar a tónica num tema muito especifico: o sexismo.

Por mais justificações relativas à precedência protocolar do presidente do Conselho sobre a presidente da Comissão, alusões à sensibilidade diplomática do momento ou demais subterfúgios que se possam arranjar, o que aconteceu naquele dia foi uma encenação com motivos políticos, com a saída da Turquia da Declaração de Istambul sobre a violência contra as mulheres como pano de fundo. E se a atitude do presidente turco chocou, mas não surpreendeu, a apatia de Charles Michel foi um mau serviço a todos os que acreditam que a Europa deve liderar pelo exemplo.

Mas por vezes há males que vêm por bem. Por vezes, temos de ser confrontados com as consequências da inação para nos decidirmos a agir. O presidente do Conselho Europeu, que já admitira ter passado umas noites mal dormidas devido a este incidente, veio esta semana dizer que fará tudo o que estiver ao seu alcance para garantir que o Conselho irá aprovar a diretiva Women on Boards, sobre a presença de mulheres nos conselhos de administração.

Esta diretiva, da qual sou relatora-sombra, pelo Partido Popular Europeu na Comissão FEMM, estabelece o objetivo de que pelo menos 40% dos lugares de administradores não-executivos das sociedades cotadas em bolsa sejam ocupados "pelo género mais sub-representado" - em geral, as mulheres. Apesar de ter sido aprovada por ampla margem pelo Parlamento Europeu, já em 2013, ainda não foi sequer alvo de uma primeira posição por parte do Conselho, onde a discussão tem sido bloqueada por alguns países.

Em outubro do ano passado, os presidentes de cinco grupos políticos no Parlamento Europeu, além de coordenadores de comissões parlamentares e os relatores da diretiva, enviaram uma carta ao Conselho Europeu, defendendo ter chegado a altura de este assumir uma posição definitiva na matéria. Até ao momento, sem resposta prática. Se o desabafo de von der Leyen tiver servido para desbloquear este assunto, a presidente da Comissão já terá saído vencedora do "sofagate".

Os países que têm bloqueado a diretiva no Conselho não são exatamente retrógrados. Falamos, por exemplo, da Alemanha, Dinamarca, do Reino Unido antes do Brexit. Opõem-se ao conceito da criação de quotas para lugares de mérito ou alegando o princípio da subsidiariedade.

Já ouvi esse argumento contra a fixação de metas percentuais repetido muitas vezes, incluindo por algumas mulheres que consideram humilhante ver o reconhecimento do seu talento e da sua competência serem impostos por decreto. Só ainda ninguém me explicou que mérito especial existe em nascer com determinado género, o masculino, ao ponto de este assegurar 80% dos lugares de liderança.

Há um momento em que temos de decidir se queremos que as cadeiras na sala sejam distribuídas com justiça e equilíbrio, ou se optamos por continuar a esperar...de pé.

Eurodeputada do PSD

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