Opinião

Afasta de mim esse iPhone

REUTERS/Elijah Nouvelage/File Photo
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O cérebro agarra-se a este estímulo constante e é como se tivéssemos perdido a capacidade de estar acordados sem olhar para nada

Na comédia “The Cable Guy”, de 1996, o personagem de Jim Carrey tem um monólogo delirante numa das cenas finais onde se percebe que foi criado em frente à televisão. O ecrã foi sua mãe, pai, professor, amigo, distracção, numa sátira bem concebida aos filhos da TV na sua época dourada.

Mais de vinte anos depois, o ecrã é diferente mas o princípio é o mesmo. Os conselhos dos especialistas de que não se deve dar um smartphone ou tablet para as mãos de uma criança pequena caem em saco roto no turbilhão da vida moderna. Os miúdos têm uma capacidade inata para entender tecnologia e estes pequenos dispositivos proporcionam uma fonte inesgotável de entretenimento. Estamos a criar humanos sem capacidade de imaginação e de se distraírem sozinhos quando estão aborrecidos, dizem pediatras preocupados. É um destino inevitável, respondemos nós, também agarrados a este vício rectangular que se tornou omnipresente na última década.

Faz precisamente dez anos no próximo mês que foi lançada a génese desta adicção de milhões de pessoas, a App Store da Apple. Essa novidade, que veio com a segunda geração de iPhones, criou o mercado das apps móveis e com elas as notificações em catadupa, o medo de estar a perder algo importante, a compulsão de puxar o telefone só para ver se entretanto chegou mais qualquer coisa.

O cérebro agarra-se a este estímulo constante e é como se tivéssemos perdido a capacidade de estar acordados, sem olhar para nada, mesmo que por momentos. Vemos televisão ao mesmo tempo que espreitamos o feed numa rede social. Levamos o telefone atrás quando vamos à casa de banho, porque a ideia de contar azulejos é demasiado deprimente. Andamos com carregadores portáteis para nunca passar pelo horror de uma bateria gasta na viagem de comboio de volta a casa. Olhar para o vazio, calar as vozes, desligar por um momento tornou-se tão difícil como uma longa sessão de meditação. E até para esta precisamos de uma app. O vício do iPhone – ou do smartphone Android de eleição – é real.

Em Janeiro, um grupo de investidores criticou a Apple por não ter reconhecido este problema criado pela sua tecnologia e pediu-lhe que fizesse alguma coisa para limitar a natureza viciante dos seus gadgets. Em especial no que toca a crianças, cujos anos críticos de formação não devem ser passados em hipnose frente a um ecrã.

Pode-se argumentar que uma empresa não tem culpa ou responsabilidade sobre o que os utilizadores fazem com os seus produtos, mas sabemos que isso não é assim (basta olhar para a desgraça em que o Facebook nos meteu). Também se pode ponderar que tomar medidas para que os utilizadores passem menos tempo com serviços e produtos é contraproducente para qualquer empresa.

E, no entanto, existe um racional benevolente por detrás dessa ideia, que a Apple finalmente concretizou durante o evento anual WWDC. A próxima iteração do iOS terá ferramentas desenhadas para diminuir o tempo passado de iPhone na mão. É uma luta constante, convenhamos; quantas vezes, com emails para responder e coisas para tratar, não damos por nós a ser puxados por um alerta que nos engole numa espiral de links, mensagens e posts? A interrupção pára a linha de pensamento e dá preguiça às células cinzentas, porque na maioria das vezes trata-se de consumo passivo de informação. Ah, as férias de sonho de pessoa X no Instagram. Oh, não posso crer que o Bruno de Carvalho acaba de pôr isto no Facebook. Eh, é cada palerma no Twitter. As pausas tornaram-se a regra e a produtividade vive algures no meio delas.

Não sei até que ponto muitos adultos irão usar as novas funcionalidades do iOS 12 que alertam para o excesso de uso e permitem colocar limites ou ligar o Do Not Disturb de forma mais útil, mas os pais devem absolutamente fazê-lo para evitar que os filhos se viciem em gadgets demasiado cedo. Sim, é inevitável; o que pode é não ser terrível. Talvez um uso mais moderado leve a um uso com maior significado, e isso é bom para toda a gente – incluindo para a Apple.

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