Opinião: Rosália Amorim

Afinal, a gestão não está fora de moda

(Pedro Correia/Global Imagens)
(Pedro Correia/Global Imagens)

O dinheiro que recebem ao fim do mês está na cauda das preocupações das novas gerações.

Quando muitos portugueses pensavam que os mais novos se interessavam sobretudo por Robótica, Inteligência Artificial, Engenharia Aeroespacial e outras da moda… eis que a velha Gestão volta a ser a área de que mais gostam muitos dos miúdos da Geração Z, segundo um estudo da Hays (grupo líder mundial em recrutamento de profissionais qualificados). Apesar de os talentos mais procurados no mercado serem os que têm competências nas áreas de Tecnologias de Informação, de Engenharia e Comerciais, a tal Geração Z diz que o que importa é o “gosto pela área”. E esse gosto recai hoje precisamente na área da Gestão.

Falando agora de dinheiro, é igualmente interessante e relevador que o salário tenha deixado de se assumir como um fator decisivo, como foi durante décadas. A remuneração teve e ainda tem bastante influência nos Baby Boomers (7%), na Geração X (12%) e nos Millennials (9%), mas não tem relevância para a Geração Z (0%). A mais recente fatia de jovens importa-se, acima de tudo, com o gosto pela atividade que desempenha e com as saídas profissionais. Nunca o salário foi tão irrelevante como para estes jovens! Os especialistas falam de um purpose (propósito, sentido, objetivo), ou seja, os mais novos procuram realizar-se num trabalho que faça sentido face ao que almejam para o seu modo de vida, de estar, de crescer.

A ideia carreirista e materialista caiu em desuso. Muitos destes miúdos viram os seus pais ficarem sem emprego durante a grande crise financeira, assistiram à degradação do poder de compra das famílias, ao ruir de modelos materialistas de gestão e de recompensas.

Este é um assunto sério com impacto no emprego nas próximas décadas e os empregadores têm de preparar-se já para esta nova mentalidade, que se baseia em fazer algo de que se goste muito, que marque as tendências, e não tanto em fazer uma tarefa associada ao retorno financeiro.

As novas gerações vão escolher trabalhar no que lhes dá mais gozo, naquilo em que se divertem, mas já sabem de antemão que vão ter de laborar por mais anos do que as gerações anteriores, até alcançarem a idade da reforma (se ainda houver dinheiro para pagar reformas quando lá chegarem!). Por anteverem já uma longa carreira contributiva, esta geração poderia admitir ou desejar trabalhar em diferentes empresas ao longo do percurso profissional, mas não. Os resultados apontam exatamente o contrário: a Geração Z não quer saltitar e é aquela que pretende trabalhar em menor número de empresas diferentes. Mais, não quer saber de esperar pacientemente até ser promovida, pois valoriza o reconhecimento imediato e sabe que o mercado é global, ou seja, se não houver um lugar e meritocracia num país, haverá noutro.

Se as empresas querem mesmo contratar e reter os melhores jovens é bom que encontrem um purpose, que saibam motivar, reconhecer e oferecer benefícios que lhes façam sentido. Para quê oferecer um carro a diesel quando preferem um elétrico ou valorizam um plafond para usar na Uber? Enquanto os velhos Baby Boomers valorizavam sobretudo o seguro de saúde (86%), formação e certificações (66%) e automóvel para uso pessoal (61%), a Geração Z quer ter a possibilidade de trabalhar a partir de casa (72%), ter flexibilidade de horários (70%), acesso à internet para uso pessoal (26%), descontos em produtos ou serviços (50%) e dias de férias extra (60%). Para além de tudo isto, pedem como chefe ideal alguém que seja motivador, justo, ético, transparente e experiente.

Os recados estão dados pelos mais novos. O mercado está cada vez mais dinâmico e competitivo, as empresas queixam-se todos os dias da dificuldade em contratar e em reter…. Mas se continuarem a aplicar velhos modelos a novas mentalidades o insucesso é garantido. Refresh, precisa-se!

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