Opinião

Agora e na hora da nossa morte

Imagem de Nossa Senhora de Fátima no adro da igreja de Artesia, Los Angeles
Imagem de Nossa Senhora de Fátima no adro da igreja de Artesia, Los Angeles Ana Rita Guerra

Há comunidades em que a celebração religiosa é o o princípio e o fim, mas não entre os portugueses que assentaram raízes na Califórnia

O rapazito com a boina na cabeça e a saca a tiracolo posava com um sorriso de orelha a orelha junto a uma rapariga de xaile e lenço, na parte de trás da igreja. Nenhum deles falava português, mas estavam trajados como os irmão Francisco e Jacinta Marto, que o papa Francisco beatificou, prestes a seguirem na procissão atrás da imagem de Nossa Senhora de Fátima.

O simbolismo é tão forte como a devoção nas comunidades de imigrantes portugueses nos Estados Unidos. As gerações que nasceram em solo estrangeiro não sabem o que quer dizer “três pastorinhos”, mas sabem que em Fátima, lá longe, Nossa Senhora apareceu a três crianças há muito tempo. E é por isso que, todos os anos, a celebração sai da igreja e invade as ruas, perante transeuntes estupefactos que se quedam nas bermas a ver os portugueses passar.

Aqui, a igreja Católica não é dada a procissões e o encerramento de ruas para demonstrações religiosas deste tipo é acontecimento raro. Mas onde há portugueses, há Nossa Senhora de Fátima; e onde há açorianos, há Festa do Espírito Santo.

Por momentos, na igreja da Sagrada Família de Artesia, o contínuo de espaço-tempo encurvou-se para confundir os sentidos. A missa de Domingo estava cheia e o fervor católico ecoou pelas portas e tectos altos, com cânticos melancólicos e ao mesmo tempo celebratórios, pedindo à Mãe de todos, a Mãe última, a Mãe sobrenatural, a sua protecção eterna. “Agora e na hora da nossa morte”, em português – bem hajam, ide em paz e que o Senhor vos acompanhe. Por momentos, na igreja da Sagrada Família de Artesia, a 30 quilómetros de Los Angeles, sonhei que estava novamente em Portugal.

Perguntei aos padres e aos responsáveis da Festa de Nossa Senhora de Fátima, que juntou cerca de cinco mil portugueses e luso-descendentes no Artesia D.E.S. Hall, como é que estas tradições se mantêm tão fortes passados tantos anos.

É um mistério de fé, não apenas religiosa. Há muitas comunidades em que a celebração religiosa é o o princípio e o fim dos ajuntamentos, mas não entre os portugueses que assentaram raízes na Califórnia, mesmo que já tenham passado várias gerações. Em Artesia, a Festa de Nossa Senhora de Fátima faz-se há 70 anos e a do Espírito Santo há 90. As crianças vão vestidas de anjos na procissão, a capela enche-se de flores e “Avé Maria”, os padres comem toucinho e presunto antes das pratadas com couves, batata e carne de vaca, e o arrematador acena com produtos gastronómicos variados, perguntando “quem dá mais” antes de começar a avisar que “vai uma, vão duas…” A bandeira portuguesa segue na mão de um músico da banda filarmónica e o povo senta-se em cadeiras à volta do coreto, aguardando o concerto.

“O convívio”, dizem-me, candidamente, é aquilo que atrai milhares de pessoas cada vez que há uma festa. A fé, sim; mas sem esta sede de comunidade, esta vontade de estar com os “nossos”, esta vontade de dizer “olá” e “obrigada” em vez de “hello” e “thank you”, as festas religiosas da Califórnia não teriam tanto fôlego.

Aquilo que se toma por garantido em Portugal tem que ser cultivado com esforço, por aqui, país de mil religiões e denominações, país onde as identidades se fundem e dispersam tanto quanto as que se mantêm intactas. Deolinda, que veio de Lisboa à aventura com o marido depois de casar as filhas, continua sem falar inglês 16 anos depois. Não se incomoda. À sombra de uma tarde de domingo quente, senta-se na cadeira à espera do terço. Los Angeles ali no horizonte, e ela ri-se e conversa em português, como se a sua Lisboa natal estivesse mesmo ao virar da esquina.

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