Alertas e recomendações da OCDE

O último relatório da OCDE, divulgado nesta semana, mostra-se claramente otimista em relação às perspetivas de evolução da economia portuguesa.

Recordo que, há exatamente um ano, as previsões desta entidade apontavam para um crescimento de apenas 1,7% em 2021 e de 1,9% em 2022. Agora, a OCDE prevê um crescimento de 4,8% em 2021 e de 5,8% em 2022 (neste caso, acima da generalidade das projeções das principais instituições nacionais e internacionais). Este desfasamento mostra bem a incerteza que tem marcado a economia e a prudência com que devemos encarar projeções económicas que nos chegam.

Mais importantes do que as previsões, sempre falíveis, são, na minha opinião, os alertas e as recomendações que constam deste relatório. Apesar do seu otimismo, a OCDE chama a atenção para o risco de um aumento de falências, cuja prevalência pode ser maior do que o esperado, prejudicando a estabilidade financeira e aumentando o desemprego.

Pode ler-se também que, embora sejam esperadas perdas significativas de empregos em alguns setores, outros aumentarão a oferta de postos de trabalho, que podem não ser facilmente preenchidos devido ao desencontro entre as competências disponíveis e as requeridas pelas empresas.

Neste quadro, a OCDE recomenda o reforço de programas de qualificação e requalificação.
Por outro lado, tendo em conta a inevitável realocação de atividades e empregos, o relatório afirma que é importante evitar a reversão das reformas do mercado de trabalho, para não prejudicar uma recuperação sustentável.

Finalmente, a OCDE recomenda que se evitem aumentos rápidos do salário mínimo, que reduziriam as oportunidades de emprego para trabalhadores pouco qualificados e contribuiriam para custos de mão-de-obra ineficientemente elevados no longo prazo.

Nada disto é novo. Reflete justamente aquilo em que tenho vindo a insistir, persistentemente.

Com a presente escalada da fatura energética e dos preços das matérias-primas, aumentos excessivos de custos, nomeadamente salariais, arriscariam minar ainda mais a rentabilidade das empresas, profundamente erodida na sequência da crise, e aumentar o risco de falências.

Poderão argumentar que só encerrariam as mais frágeis e menos produtivas, com empregos menos qualificados, acelerando um processo de "destruição criativa". Pergunto-me se será o momento de estimular este processo, quando a esmagadora maioria das empresas ainda luta com severos problemas financeiros. Quantos encerramentos de empresas, com os consequentes custos sociais, estaremos dispostos a suportar?

Quanto à reversão das reformas do mercado do trabalho, só viria a prejudicar a flexibilidade e a adaptabilidade de que as empresas portuguesas souberam dar provas ao longo desta crise e que se estão a tornar vantagens competitivas cada vez mais relevantes nos mercados mundiais.

Se queremos alimentar o otimismo da OCDE relativamente à economia portuguesa (aliás fortemente valorizado pelo governo), levemos então a sério também os alertas e as recomendações que nos são lançados.

Presidente da CIP

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de