Amadurecer o ecossistema de inovação

Estamos na semana do WebSummit, este ano em formato verdadeiramente "Web", e de certa forma o facto de ser um evento virtual faz-nos questionar muita coisa. Deve também fazer-nos repensar na estratégia por trás do evento e reforçar a necessidade de aprofundarmos a nossa visão para amadurecer o ecossistema de inovação que Portugal tem vindo a criar.

Não há dúvida que estamos numa fase de maturidade incomparável com o que estávamos há 10, 5 ou mesmo 3 anos atrás e que o contributo do WebSummit tem sido muito determinante para o posicionamento de Portugal, como uma referência global no mundo das startups e da inovação.

O reforço da nossa marca enquanto nação tecnológica, de inovação e moderna, é determinante para criar uma estratégia de marca para Portugal. Conseguido este patamar de maturidade, é importante agora aprofundar e afinar a estratégia, para que seja mais clara a diferenciação.

Acredito que não faz muito sentido comparar Portugal com Silicon Valley, Israel ou Singapura, pois são ecossistemas com maturidades diferentes e com dinâmicas próprias que são muito difíceis de replicar noutros contextos. Mas como sabemos é possível criar ecossistema de inovação maduros em diferentes partes do mundo, algo que temos visto um pouco por todo o mundo nos últimos anos.

Os ecossistemas de inovação regionais desenvolvem-se de forma semelhante aos das empresas. Uma empresa começa por inovar internamente, para depois inovar de forma aberta com parceiros externos, em projetos de alto valor, para numa fase seguinte passar a ser uma parte ativa na comunidade de inovação (ex. Google ou AWS). Os ecossistemas de inovação regionais começam com uma organização relevante que desempenha esse papel (ex. uma universidade ou uma grande empresa, como foi a PT no passado), para depois passar a haver colaboração entre diferentes empresas, que levam depois à criação de diferentes comunidades composta por diferentes stakeholders com capacidade de inovação e de conhecimentos distintos.

Para se criar um ecossistema de inovação é importante olhar para diferentes dimensões, como: 1) capital, para investimento e R&D, 2) talento, com o mindset adequado, 3) governo, com regulação flexível e competitiva, 4) conhecimento, com experiência acumulada, e 5) rede, de diferentes stakeholders com diferentes competências e perfis.

Cada uma destas dimensões pode ter diferentes níveis de maturidade, que podem estar em níveis diferentes. Um ecossistema maduro tem todas estas dimensões num bom nível. Ao início é necessária muita energia para criar a massa crítica para que um ecossistema atinja um estado de sustentabilidade e capacidade de se desenvolver de forma autónoma.

É importante perceber a noção de sistemas e sistemas de sistemas para se poder compreender melhor como gerir um ecossistema de inovação. Como refere Russ Ackoff, um sistema é um conjunto de partes interdependentes, em que cada uma tem a capacidade de afetar o comportamento do sistema, e que interagem de acordo com regras definidas.

Um sistema de sistemas (SoS) é um sistema em que os seus elementos são em si mesmos sistemas. Um SoS é um conjunto de sistemas interconectados e autónomos que têm capacidades e funções que cada sistema não conseguiria ter de forma independente. Um SoS, resulta dum sistema operativo de colaboração, que gera novos comportamentos e melhorias das capacidades dos sistemas em conjunto e como um todo, sem comprometer a independência e a autonomia de gestão de cada (sub)sistema.

A maioria dos setores mais relevantes como os transportes, energia, saúde, ou o setor financeiro são SoS. Um ecossistema é de certa forma o sistema operativo de gestão de sistemas de sistemas. Uma das dimensões críticas dum ecossistema sustentável é o desenvolvimento dum modelo de negócio de ecossistema sustentável, que mantenha o ecossistema coeso, da mesma forma que acontece na natureza. Um ecossistema ecológico (ou uma ecologia) sustentável tem predadores e presas e tem muita destruição e criação, mas tem um modelo que se estabiliza ao longo do tempo e que permite adaptar e evoluir de forma eficiente.

Para se perceber verdadeiramente os sistemas é importante começar por compreender que não existem sistemas, ou seja os sistemas são dinâmicos e dependem do nosso modelo mental. Por exemplo, qual o limite do sistema dum carro? O carro, as rodas, a estrada, as cidades?

Em segundo lugar é importante perceber que um sistema é mais do que a soma das suas partes, da mesma forma que o corpo humano é mais do que o somatório dos seus órgãos.

Um sistema é também sempre maior do que a parte que vemos do sistema, para isso basta pensarmos na conhecida analogia dos cinco cegos a tocar num elefante. Esta noção é importante no mundo de gestão e ficou conhecida no famoso "Beer Game" de Peter Senge, em que demonstra que quando mais cada parte duma empresa (ex. Marketing, vendas, produção) tenta otimizar a sua parte sozinha, normalmente mais isso tem um impacto negativo no sistema como um todo.

A essência da disciplina do pensamento de sistemas está na mudança de mindset, passar a ver as interligações e os processos em vez das relações lineares de causa e efeito. Não perceber isso pode levar a uma lógica de julgamento e culpabilização, a reações erradas a um determinado acontecimento, que pode ter consequências negativas no sistema como um todo. Por fim, é importante perceber que os sistemas podem ser modelados como uma dualidade de reforço e balanço de feedback. Um bom exemplo é a forma como normalmente enchemos um copo de água, em que vamos ajustando o nível da água de acordo com a perceção do ajuste necessário para a quantidade de água pretendida.

O mundo é um sistema (ou sistema de sistemas) cada vez mais complexo, cheio de (sub)sistemas cada vez mais emergentes que se interconectam e se influenciam. Vivemos numa era de convergência de tecnologias (ex. AI, robótica, biotecnologia), de indústrias (ex. blue, space, telco, defesa, etc) e de setores (i.e. social, sustentabilidade, governo, empresas). Esta dinâmica está a criar cada vez mais velocidade e oportunidades, mas também mais complexidade e dispersão.

Grandes empresas tecnológicas como a Google ou a AWS baseiam boa parte do seu modelo de negócio no desenvolvimento de plataformas e gestão de ecossistemas de parceiros de inovação muito fortes. Setores chave como a banca e os seguros, estão a transformar os seus negócios através da criação de novos ecossistemas de parceiros de inovação para desenvolver novas soluções para áreas como a saúde, habitação ou mobilidade.

A lógica de ecossistemas de inovação e de inovação colaborativa tem emergido com o novo paradigma de criação de valor e crescimentos para a maioria das organizações. A aceleração da digitalização e a profunda alteração do paradigma do modelo de trabalho está a transformar o mundo ainda mais descentralizado e a tornar o talento e as redes cada vez mais líquidas. Este é um desafio, porque nos torna mais vulneráveis a ataques de concorrência global, mas é por outro lado uma oportunidade para alavancar novas redes e atrair novos parceiros e talento para novas estratégias e dinâmicas de inovação.

Tendo em mente o conceito de ecossistemas, sistemas e SoS, a maturidade do ecossistema que temos vindo a desenvolver e o que está a acontecer no mundo, é crítico para Portugal definir uma estratégia clara sobre que tipo de ecossistema pretende ser nos próximos anos.

Apesar de termos alguns Unicórnios como a Farfetch, OutSystems e TalkDesk, é muito difícil competir com Israel, Silicon Valley ou China neste modelo, pois não temos a liquidez e nível de maturidade nas diferentes dimensões de ecossistema. Acredito mais na especialização competitiva de Portugal como um ecossistema global para determinados clusters (sistemas de sistemas) industriais e tecnológicos.

Fiquei entusiasmado com a mensagem da Presidente Ursula von der Leyen no WebSummit, sobre a importância do Digital Service Act para a criação dum verdadeiro mercado único digital, e com a visão para a transição digital e energética que a Europa pretende liderar.

Este é um bom momento para encontrar um novo desenho para um sistema operativo eficaz para promover uma verdadeira colaboração, como recursos e flexibilidade que contribuam para ecossistemas de inovação mais maduros, nas suas multiplicas dimensões.

É critico conseguirmos amadurecer ecossistemas de inovação onde possamos de facto criar valor de nível internacional, para conseguir posicionar Portugal (e a Europa) como player global em indústrias como a Energia, Economia do Mar, AgroAlimentar, Saúde, Turismo, Mobilidade ou Têxteis & Calçado.

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