América. Trump não foi uma aberração, foi a apoteose

Na edição matinal da NPR este fim-de-semana, o colunista Matthew Sheffield fez uma afirmação que deixou a jornalista engasgada: "Não há salvação para o conservadorismo", afirmou. "Tem de ser destruído."

Sheffield é uma espécie de unicórnio na cena política norte-americana. Fala de uma posição extraordinária, porque foi, no passado, um activista do conservadorismo político nos Estados Unidos da América. Co-fundou o NewsBusters, um site dedicado a atacar os meios de comunicação e a apontar para os "preconceitos" que a direita conservadora acredita existirem contra si. Educado na religião Mormon, Sheffield cresceu a ouvir que não se desafia a autoridade e que a mentira e a manipulação são justificadas se forem em prol do "trabalho de Deus."

A conversa na NPR aconteceu depois de um conjunto de tweets que Sheffield publicou explicando como tudo aquilo que defendeu ao longo de anos começou a desmoronar-se. "Percebi mais tarde que eu não entendia que é suposto o jornalismo retratar a realidade", escreveu.

Que declaração assombrosa. Mas que descreve, em poucas palavras, aquilo que se passa no panorama de meios de comunicação ultra-conservadores: a sua visão "é que os média devem promover e servir os políticos conservadores."

Esta é a génese do lodo informativo que tentamos navegar à vista, passando demasiado tempo a desmentir informações falsas e histórias descontextualizadas que envenenam o discurso público. Esta é a génese do apoio cego a Donald Trump, mesmo quando ele se recusa a admitir que perdeu e espalha mentiras perigosas sobre a integridade das eleições.

"Também descobri, à medida que subia nas fileiras dos média de direita, que a maioria das figuras mediáticas conservadoras não tem treino como jornalista nem desejo de verificar factos", escreveu Sheffield. "Também vi tanta gente pensar que noticiar informação negativa para o GOP era tendencioso, mesmo que fosse verdade."

O motivo pelo qual este volte-face de Sheffield é tão agudo é que é também muito raro. A direita conservadora norte-americana tem uma máquina de comunicação muito bem oleada e bastante lucrativa. As figuras mediáticas que acumulam seguidores a "fazer chorar os liberais" e a "fazer explodir bombas de verdade" não só exercem enorme poder como têm carreiras bem pagas num universo onde a verdade é facultativa. Há um odor a seita que é mais visceral que o tribalismo. Olhem, por exemplo, para a ironia de os conservadores se queixarem de que o Facebook os censura, mas os posts e vídeos com maior alcance e mais visualizações na plataforma serem consistentemente de figuras conservadoras, como Dan Bongino. O importante é a percepção, não a verdade nem a consistência.

"A verdade, para os jornalistas conservadores, é tudo o que prejudique a esquerda. Nem sequer tem de ser um facto", escreveu Sheffield. "As inúmeras mentiras de Trump sobre qualquer assunto debaixo do sol são justificadas porque os seus enganos apontam para uma verdade maior: que os liberais são malignos."

Isto é algo que norteia o comportamento de toda a direita, desde o eleitor mais casual ao político mais radical: a noção de que qualquer liberal é maligno, ateu e procura a destruição da América e da igreja. A polarização de que tanto se fala funciona por causa desta incapacidade de ver o "outro" como uma pessoa. É um inimigo, é escumalha, é herege, tem de ser subjugado. Por isso se justifica a fabricação de notícias falsas, a mentira e a manipulação.

Isto não é de agora, tem décadas, mas tornou-se muito mais perigoso com a massificação das redes sociais e a formação das "câmaras de eco" que distorcem a visão da realidade. Vejo-o acontecer aqui e vejo-o a espalhar-se em Portugal também, assistindo a amigos e familiares a radicalizarem-se online, a participarem em manifestações absurdas contra as máscaras, a aplaudirem o que um certo aprendiz de ditador cospe para os megafones das redes sociais.

Não sei qual é a melhor forma de lidar com este processo de radicalização, mas sei onde ele desemboca; e sei que o processo democrático não é suficiente para o exterminar. Durante muito tempo pensou-se que Trump era uma aberração, mas tal como Sheffield escreveu, ele foi a apoteose. Agora que os quatro anos de Trump estão a chegar ao fim, as mutações do trumpismo estão apenas a começar a sua propagação.

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