Não subsistem dúvidas que a eletricidade será, pelas suas características e potencial renovável, o ator principal da transição energética.
Esta conclusão está aceite praticamente por toda a comunidade internacional do setor. Com preços de produção cada vez mais competitivos, com tecnologias de produção cada vez mais eficientes e sustentáveis, e com a crescente consciencialização social anti carvão e petróleo, o caminho da descarbonização da nossa economia com a eletricidade num papel decisivo tornou-se irreversível. São os sinais dos tempos e, ainda bem!
Mas, neste período decisivo e histórico para o setor energético, não podemos deixar de valorizar também o papel do gás natural, especialmente o gás renovável e o hidrogénio. Desenganem-se aqueles que julgam que o gás está condenado ao fracasso, nada mais errado.
Se mais nenhuma razão houvesse para valorizar a importância do gás, a complementaridade entre as duas commodities na nossa matriz energética seria por si só merecedora de destaque.
A elevada penetração de fontes renováveis de energia na produção de eletricidade gera um conjunto de dificuldades devido à variabilidade da sua produção. Isto é, com grande parte da tecnologia renovável dependente de fenómenos naturais e, por isso, imprevisíveis no volume e no tempo, podemos nem sempre ter o sol, o vento ou a água suficientes para produzir a eletricidade necessária para a procura em determinado momento, ou ter uma produção em excesso noutro. O progresso do armazenamento (verdadeiro game changer do sector) deverá contornar esta limitação, mas ainda tem um longo caminho a percorrer até atingirmos o grau de desenvolvimento tecnológico necessário.
Assim, o gás desempenha uma função vital nestes desequilíbrios do sistema, permitindo a produção imediata de eletricidade, assim como o seu armazenamento, nos casos em que num determinado momento, é maior a produção do que o seu consumo. Os processos de power-to-gas surgiram nos últimos anos como uma solução de longo prazo para o armazenamento de excedentes de eletricidade renovável
Importa ainda salientar que o gás renovável e o hidrogénio, são os verdadeiros promotores da denominada "economia circular". A sua produção a partir de recursos endógenos (hidrogénio) ou da conversão da matéria orgânica biodegradável; resíduos sólidos urbanos e águas residuais (biometano) permitem o desenvolvimento regional e contribuem decisivamente para a segurança e menor dependência na importação energética. A ideia de que Portugal pode vir a ser um exportador de energia, por via das tecnologias de produção renovável, encontra no gás renovável o portador prioritário na trajetória da descarbonização da economia nacional. Por esse motivo importa apoiar o desenvolvimento de uma indústria de gás renovável, aliás no sentido postulado no PNEC e na Estratégia Nacional para o Hidrogénio.
No caminho da sustentabilidade e da descarbonização, o gás renovável e o hidrogénio, assumem um papel fundamental nos diversos setores da economia, quer por permitirem níveis mais elevados de incorporação de fontes renováveis de energia nos consumos finais, quer porque, permitem acelerar a descarbonização da economia e potenciar um novo setor exportador e criador de riqueza e postos de trabalho.
Integrar com sucesso novas fontes energéticas nos setores de atividade
A complementaridade de energias é a base para uma crescente penetração de renováveis no sistema elétrico nacional, permitindo a evolução das renováveis, nomeadamente do armazenamento, para níveis de eficiência e uniformidade de fornecimento atualmente inatingíveis. E, desta forma, será possível uma mais rápida adoção das diferentes fontes energéticas.
Veja-se o exemplo do setor da mobilidade, em que o gás natural e o gás renovável serão também decisivos nos próximos anos. Muito embora a eletricidade esteja em crescendo na mobilidade, a tecnologia (baterias e autonomia) ainda não dá resposta competente ao transporte rodoviário de mercadorias de longas distâncias, à logística urbana e ao transporte de passageiros. A descarbonização não terá sucesso sem que venhamos a abandonar as soluções a petróleo (gasolina e gasóleo) tal como as conhecemos hoje. O transporte a gás é já uma realidade, em Portugal existe mais uma dezena de postos de abastecimento e os transportes coletivos de Lisboa e do Porto têm vindo a reforçar as suas frotas com mais veículos a gás. Os transportes marítimos e ferroviários serão o próximo passo. Com a vantagem de termos esta infraestrutura facilmente adaptada para o hidrogénio, permitindo que num futuro próximo seja possível abastecer estes veículos com uma energia "carbon free".
Na indústria em determinados setores com elevados consumos de energia que utilizam altas temperaturas nos processos (aquecimento e arrefecimento), a eletricidade pode não ser totalmente eficiente, sendo por isso o gás renovável a alternativa para a descarbonização. Esta utilização tem também o mérito de valorizar as atuais infraestruturas de receção, armazenamento, transporte e distribuição de gás, prolongando a sua vida útil e permitindo uma maior incorporação de renováveis, no consumo dos diversos setores da economia.
Na ACEMEL, vários associados perceberam desde cedo este potencial de complementaridade, sendo já muitas as empresas que têm apostado em projetos que conjuguem eletricidade, gás renovável e hidrogénio. O futuro energético não será dominado por uma fonte de energia, mas sim, pelo mix de várias fontes que se complementam entre si, no desenvolvimento de uma sociedade de carbono zero.
Ricardo Nunes, presidente da Associação de Comercializadoras de Energia no Mercado Liberalizado