Quando a maré baixa...

Alberto Castro

É que se vê quem estava a nadar sem calções, terá dito Warren Buffett. Ou, em bom português, a descer todos os santos ajudam. Estes aforismos ocorreram-me, esta semana, a propósito do crescendo de manifestações de mal-estar que campeiam no SNS. Se ainda se recordam, antes da pandemia a ministra da Saúde estava entre os ministros mais mal-amados, tanto entre os profissionais de saúde, como do público, em geral. Um começo desastroso da gestão da pandemia, em que o sectarismo ideológico impediu o compromisso necessário para evitar que os lares se tornassem em casas mortuárias, parecia validar tal avaliação. A generalização da pandemia e o toque a rebate comandado pelo Presidente, colocaram os profissionais do SNS no centro das atenções. A autogestão confundiu-se com planeamento e política e o voluntarismo de médicos e enfermeiros, administradores e pessoal auxiliar fizeram parecer e aparecer capacidade de resposta. O instinto político da ministra fez o resto. Os ares mudaram e de incapaz passou a génio. O começo atabalhoado da campanha de vacinação ameaçou reverter o estado de graça, mas o pronto-socorro António Costa e a pertinácia de Gouveia e Melo resolveram o problema, dando um palco que Marta Temido não hesitou em pisar, tornando-se na vedeta do governo, a tal ponto que houve quem a visse como putativa sucessora de Costa.

Acalmada a pandemia, com o SNS a voltar à rotina, os problemas de sempre, em que se misturam corporativismo e questões estruturais, inércia com necessidade de reorganização e racionalização, reapareceram. À ministra ouviram-se frases feitas, vazias de ideias. E, quando assim é, fica livre o campo para que corporativismo e estatismo cantem em coro a canção cujo refrão é "são precisos mais recursos". Em vez de premiados, os bons exemplos são esquecidos e, tacitamente, desvalorizados. As palavras e os atos dos administradores hospitalares ignorados. Os estudos e sugestões arquivados. O SNS estaria bem, assim houvesse mais recursos. O grau zero da política. A maré não baixou ainda o suficiente?

Alberto Castro, economista e professor universitário

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