Opinião

Angola 2018

João Lourenço, Presidente de Angola. Fotografia: ESTELA SILVA/LUSA
João Lourenço, Presidente de Angola. Fotografia: ESTELA SILVA/LUSA

Nos últimos 10 anos, por motivos de índole profissional, tenho-me deslocado a Angola com alguma regularidade, o que me tem permitido seguir a sua evolução com o interesse de quem foi consolidando boas relações e amizades, desejando para Angola e para os Angolanos o melhor sendo minimamente conhecedor das dificuldades e vicissitudes que atravessa.

Nos últimos meses os dirigentes e executivos de Angola com quem mantenho contacto mostram-se otimistas quanto ao futuro. A recente entrevista do Presidente João Lourenço ao Expresso também permite uma visão de esperança para a sua evolução.

O relatório apresentado na sequência das reuniões que o FMI manteve com responsáveis de Angola (Maio de 2018) corrobora esta visão otimista no contexto de grandes desafios. O FMI congratula-se com o Programa de reformas do atual executivo para restaurar a estabilidade macroeconómica e melhorar o business environment: flexibilidade na taxa de câmbio do kwanza (mantido à custa das reservas de moeda estrangeira que ficaram muito depauperadas), política monetária que ajude a conter a inflação no contexto desta desvalorização (estamos a falar duma taxa de inflação que ronda os 25% e que se pretende reduzir a um dígito), flexibilizar a atividade económica num país com imenso potencial e que tem estado muito centrado na exploração petrolífera, reduzir o défice fiscal (passar de 6% em 2017 para 2% em 2018); levar a dívida pública num percurso descendente (aproximar-se em 5 anos dos 60% do PIB) e promover a boa governance das Instituições e combater decididamente a corrupção entre muitas outras.

Angola é um país muito jovem no sentido de que existe como República independente há poucos anos (e ainda menos em paz) e também no sentido de que a sua população é verdadeiramente jovem; a pirâmide etária tem uma base muito ampla e o crescimento da população é significativo; estima-se que 75% da população tem menos de 30 anos. Como país jovem que é, necessita fortalecer as suas Instituições e por ter uma população tão jovem tem de olhar de forma muito particular para a educação e formação profissional. Por outro lado, tem de desenvolver uma classe empresarial, com conhecimento, sentido de responsabilidade e capacidade de assumir riscos calculados; a saúde é outro dos aspetos que necessita ação imediata.

São muitas as carências e o esforço por preparar e executar as políticas públicas mais adequadas é gigantesco.

Na entrevista do Presidente João Lourenço já referida é patente a consciência desta situação e reconfortante a visão de confiar mais na iniciativa privada para a sua resolução. Ao Governo corresponde criar o enquadramento económico (business environment) que a permita e desenvolva reduzindo de forma significativa os custos de contexto.

E todas estas considerações gerais o que é que têm que ver com a vinda do Presidente João Lourenço a Portugal? Em que medida é que os laços históricos que unem os dois países poderão ser uma ajuda no amadurecimento de Angola do ponto de vista económico e social?

A relação real entre os dois países é muito forte independentemente de outros aspetos circunstanciais. Há dezenas de milhares de Portugueses que vivem e trabalham em Angola, Angola é o principal destino das nossas exportações fora da EU, milhares de Angolanos residem em Portugal, os múltiplos voos diários entre Luanda e Lisboa estão habitualmente cheios, os jornais portugueses são lidos em Angola e muitos Angolanos acompanham mais de perto os resultados do futebol português que muitos portugueses…

Só pode fazer sentido tomar consciência desta realidade, apoiá-la, fortalecê-la. As vantagens para ambos os países são claras. Portugal é uma porta de entrada natural para muitos países que queiram investir em Angola, os portugueses têm todas as características para veicularem esses investimentos porque se entendem muito bem com os Angolanos; Angola poderá proporcionar muito boas oportunidades de investimento e também de trabalho para Portugal em tantos setores mas, naturalmente duma forma preferencial nos já mencionados da saúde e educação como muito bem referia o seu Presidente na já citada entrevista ao Expresso.

Do encontro que está agendado para estes dias o que esperamos os Portugueses que nos sentimos particularmente próximos de Angola? Talvez uma maior facilidade para a obtenção de vistos (em reciprocidade com a que se poderá conceder aos Angolanos que venham ao nosso país); um enquadramento legal para o Investimento em Angola claro e flexível, que permita o repatriamento de divisas duma forma previsível; algum protocolo de colaboração nos setores da educação e da saúde que ajude efetivamente a paliar estas carências; protocolos de colaboração em muitos outros setores da atividade económica; e muitos outros aspetos, seguramente de grande importância que neste momento não tenha presente.

De ambos os países e das suas pessoas o que se espera são relações sérias e profissionais (para além das familiares e afetivas) e justas de parte a parte. Que as relações entre os dois países sejam verdadeira e realmente win win.

Pedro Pimentel, Professor da AESE e da ASM

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