Antes motor sozinho que travão mal-acompanhado

Sabemos mais dos males de Boris Johnson pela imprensa portuguesa que pela inglesa. Regra geral, isso deveria significar apenas que a primeira está a dizer as verdades que a segunda oculta. Mas, toda a regra tem exceção. Sobretudo, quando em causa não está a República das Bananas, mas Inglaterra, onde existe uma tradição de liberdade incomparavelmente maior que na maioria dos países continentais, incluindo o de Salazar, Cavaco, Sócrates, Costa e afins.

Quando Johnson foi apanhado numa foto de 2020 a desrespeitar as regras sanitárias decretadas para o período do Natal, a imprensa europeia conseguiu ser mais histérica que a britânica. No Reino Unido (RU), o tema acabou por morrer praticamente na mesma semana em que foi lançado, pois os ingleses já estão pelos cabelos com tantas regras e começam a desvalorizar o seu incumprimento. Mas, claro, não é só com o PM que o jornalismo europeu embirra. É mesmo com a Inglaterra e esses terríveis eleitores que cometeram o pecado mortal de exercer os seus direitos democráticos no referendo de 2016. Tal rancor, aliás, bem se notou na final do último Europeu. Quantas almas embrutecidas pelo desejo de vingança não terão apoiado a Itália apenas por fidelidade a uma campanha mediática anti-Brexit?

Compreendo, o Brexit custa a engolir. Talvez por isso se tenha feito tanto alarido quanto à performance económica menos conseguida do RU em 2017 e 2018. Sucede que em 2019 o crescimento do RU e EU já estava par a par. Este é o problema das análises de curto prazo. Vistas curtas impedem-nos de ver o panorama, o qual nos conta uma história bem diferente. Tendo aderido à CEE em 1973, também no ano decorrente o RU sofreu uma queda (até mais aparatosa). Nessa altura, porém, a imprensa europeia tirava as conclusões opostas. Todos os males económicos, tanto da CEE como do RU, se deviam à caprichosa relutância dos britânicos, a qual apenas se resolveria com o voto "sim" no referendo de 1975.

A narrativa era simples. Caso os britânicos votassem "errado", o RU seria visto como o "travão" da Europa. Caso votassem "certo", seria o seu "motor". Para gáudio da imprensa continental, o "certo" venceu. Por isso, o Le Monde logo tratou de felicitar "a rica e apaixonada campanha referendária e a elevada afluência às urnas", bem como a "maturidade política do povo britânico" (o mesmo que, até então, era responsabilizado pela crise, por ser dado a imaturos caprichos). Entretanto, a título de curiosidade, saliente-se que, nessa altura, era o Partido Trabalhista que mais se batia pela saída, posição oposta à que veio a tomar em 2016 - com exceção de um segmento dissidente, o Labour Leave. Quanto a Jeremy Corbyn, que da primeira vez votara "errado", também ele manifestou alguma hesitação antes de, à segunda, finalmente votar "certo".

Politiquice, duplos critérios, situacionismo, parcialidade e vistas curtas não se inventaram no século XXI, como podemos constatar. Sendo que tudo isso nos afasta do panorama real, subjacente às diferentes opções estratégicas do RU relativamente à UE, apenas percetíveis numa visão a longo prazo. Ora, essa visão diz-nos, por um lado, que a Inglaterra beneficiou claramente da união desde os anos 70 até à transição do milénio, tendo acompanhado e frequentemente superado a curva de crescimento da Europa. Contudo, a partir dos anos 2000 a história passou a ser outra. A UE entrou numa fase de estagnação, enquanto o leque do mundo se abria, desvelando economias emergentes e novas oportunidades globais. Por que motivo o RU haveria de permanecer numa estrutura fechada, altamente burocrática, planificadora, regulatória, cada vez mais inspirada no socialismo e dominada pela Alemanha?

Há quem apresente motivos morais para condenar o pragmatismo inglês, como se a UE fosse alguma instituição de caridade. Quanto aos que alegam questões de lealdade, talvez devessem dar ouvidos ao que, provavelmente, já lhes terão dito suas mamãs: "E se os teus amigos se atirarem a um poço, tu também te atiras?". A Europa é talvez o bloco que menos se tem adaptado à realidade global do século XXI, e o poço da recessão é uma possibilidade bem real - nunca sabemos quando ela vem, mas convém que não nos apanhe de calças na mão a brincar aos socialismos e utopias.

Voltando a Boris Johnson, logo no seu primeiro discurso enquanto PM ele explica claramente a estratégia do Reino Unido para um mundo que deixou de ser constituído por blocos estanques, dando lugar a estruturas e dinâmicas muito mais complexas, ágeis e particularizadas entre nações e agregados supranacionais. Aproveitando a herança histórica e diplomática do antigo império, a Inglaterra pretende afirmar-se como o principal destino de investimento no continente europeu, passando a negociar livremente acordos de comércio internacional, além de livrar a sua agricultura, indústria e serviços das absurdas limitações fiscais e regulatórias impostas pela UE (que sempre entraram em choque com a tradição britânica):

"Após três anos de dúvidas infundadas, é tempo de mudar de registo, recuperar o nosso papel histórico e natural como uma Grã-Bretanha empreendedora, virada para o exterior e verdadeiramente global, generosa no temperamento e comprometida com o mundo."

Uma vez mais, isto não acontece de um dia para o outro. É preciso ter uma visão abrangente e de longo prazo para entendermos o que está em causa. E não falta quem já reconheça méritos na estratégia inglesa, vendo nela um futuro brilhante. É o caso da Unilever e mais de 1000 companhias financeiras que passaram a estabelecer-se no RU após o Brexit. Deste modo, parecem estar em perfeita sintonia com a última World Economic League Table, a qual prevê que a economia britânica se torne 16% maior que a francesa até 2036.

Em tom depreciativo, já o artigo Le Monde (1975) dizia que a Inglaterra podia ser o travão ou o motor da Europa. De facto, podia. Mas, como motor escolheram a Alemanha, enquanto tentaram travar os britânicos - acusando-os do inverso - impondo-lhes uma cultura económica à continental, intervencionista, regulatória, social-democrata, como quem se atira a um poço à espera que o amigo vá atrás. Não foi. Preferiu fazer uma ligação direta com o mundo e dar de frosques, antes que gripasse por contágio.

Economista e investidor

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