Opinião

Anti-quarentena: liberdade ou morte

Protestos contra quarentena em Huntington Beach, Los Angeles
23 ABC News/YouTube

Numa demonstração representativa das forças que moldam o século XXI, centenas de pessoas saíram à rua para protestar contra as medidas de isolamento

A voz lendária de Lee Greenwood ecoa em colunas altifalantes, cantando “E tenho orgulho de ser americano, onde pelo menos sei que sou livre”, enquanto manifestantes agitam bandeiras dos Estados Unidos à espera da apoteose da canção. “Amo esta terra, Deus abençoe os EUA!”, cantam em uníssono, levantando os braços.

As vozes ouvem-se bem porque estas pessoas não estão a usar máscara. Pavoneiam-se no sol do sul da Califórnia, em Huntington Beach, de mãos nuas e caras à mostra, perante a impavidez de dois polícias envergando, eles sim, máscaras pretas de protecção. Empunham cartazes onde se lê “Covid-19 é uma mentira”, “Distanciamento social = comunismo” e “Viver em liberdade ou morte”. São os anti-quarentena. Saíram à rua em desafio das ordens de permanência em casa que vigoram em plena pandemia, pouco antes de o governador Gavin Newsom anunciar que a Califórnia assistiu às “piores 24 horas desde que o vírus atacou”.

Estamos perante a vitória da dissonância cognitiva que arrasa o século XXI. Há mais de 12 mil infectados só no condado de Los Angeles, mas estas pessoas – cerca de 200 – que saíram à rua vieram com a convicção de que a elas não enganam. Nelas o bicho não pega. Se é que há bicho, de todo. Nas palavras de Becky Walker Fagernes, agora imortalizadas por uma reportagem da KTLA, a covid-19 é “a Nova Ordem Mundial a tentar chegar ao domínio”.

Acredita que usar máscara é ir na conversa do rebanho. Ela e todos os que ontem fizeram repetir o cenário às portas dos legisladores californianos, em Sacramento. Desta vez cantavam “Born in the U.S.A”, mas pediam o mesmo – o fim das medidas de confinamento no estado, um dos que melhor está a lidar com a crise no país precisamente porque agiu cedo.

Mesmo nas regiões com graves aumentos da mortalidade por causa da covid-19, os manifestantes estão a sair à rua, de Austin, Texas até ao capitólio do Michigan, Ohio e Kentucky. Vestem-se com a bandeira do país e exibem o seu armamento, aparentemente ignorando o facto de que brandir espingardas na face de um vírus é 100% ineficaz. Em Denver, enfermeiros fizeram frente a este tipo de manifestantes e foram insultados à séria. São imagens que ficam: as caras enraivecidas, veias tensas, bochechas vermelhas, boca gritando impropérios a quem está na linha da frente, punhos em riste.

Argumentam que ninguém lhes pode truncar a liberdade de sair para a rua quando querem, como querem, nem de fechar as portas de lojas e empresas. Mesmo que isso custe a morte. Morte dos outros, vamos lá a ver, porque ali só há crentes em Jesus Cristo e nada lhes faltará.

As imagens que correram mundo destes protestos ficarão para sempre inscritas na página mais negra deste século, o momento em que todas as correntes maléficas das últimas décadas se juntaram para convocar a catástrofe. A desconfiança dos cientistas. Os locutores de rádio fanáticos. Os anti-vacinação. As milícias anti-governo. Os apresentadores de televisão mascarados de jornalistas. Os fundamentalistas religiosos. A direita radical e a sua fúria que saiu das franjas para a corrente pública. Este caldeirão de ideias velhacas e perigosas só podia derramar asneira perante uma crise tão profunda e tão global, em que ninguém tem certezas de nada e é difícil saber qual a solução mais eficaz.

Ainda assim, é impossível evitar a estupefacção perante o comportamento ideológico desta facção. Não há qualquer lógica em arriscar o contágio por um vírus possivelmente fatal, que não tem vacina nem protocolo de tratamento, só para afirmar um princípio vago sem colagem à realidade.

Aqui, liberdade é a deles, não a dos outros, e a morte é a dos outros, não a deles. Porque estes são os mesmos grupos que querem proibir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a interrupção voluntária da gravidez e a educação sexual, ao mesmo tempo que defendem a pena capital e a posse de armas, mesmo que isso leve a tiroteios em massa frequentes.

Liberdade para fazer só o que eu quero não é um princípio universal, é um espelho do individualismo extremo que penaliza a sociedade americana. Num país cheio de oportunidades e grandeza, há aspectos de sub-desenvolvimento que são alarmantes.

Isto importa a toda a gente porque os Estados Unidos, a maior potência mundial, inspiram políticas, comportamentos e correntes sociais. No Brasil, a linha inexplicável de Bolsonaro contra o isolamento social recebe o apoio de defensores que apontam para os protestos nos Estados Unidos e as afirmações do próprio presidente, Donald Trump, que parece incitar a esta desobediência civil.

A comparação disto com o comportamento do governo, políticos e sociedade como um todo em Portugal é abismal. Haverá sempre detractores e pessoas que vão ao Twitter perguntar porque é que ninguém se importa com os mortos causados pela gripe, mas no global os portugueses estão a mostrar-se exemplares no combate à covid-19. Os elogios que vêm de fora não são gratuitos; quem está deste lado, mesmo não tendo formação fármaco-epidemiologista, vê bem a diferença que faz.

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