Edson Athayde

“Are you talking to me?”

Como diria o meu Tio Olavo: “Fora o motorista, tudo na vida é passageiro”.

“A solidão me perseguiu pela vida toda, em todos os lugares”, diz o motorista de táxi, enquanto guia pelas ruas de Nova Iorque. Ele chama-se Travis Bickle e é completamente maluco. Travis é Robert de Niro, naquela que se tornou a sua atuação maestra no cinema. Isto foi há exatamente 40 anos (o filme estreou a 8 de Fevereiro de 1976).

A reputação dos taxistas era bem menos glamorosa antes do yellow taxi do De Niro aparecer no grande ecrã. Não é que tenha ficado charmosa depois mas, ao menos, tornou-se mais interessante (afinal, aquele senhor gordo ao volante poderia ser um psicopata a espera de um motivo banal qualquer para matar e se matar).

Pouca gente lembra mas “Taxi Driver” perdeu o Óscar de Melhor Filme para a primeira entrega de “Rocky”. Até hoje há grandes discussões sobre o mérito ou não dessa premiação. O certo é que as duas longas apresentavam visões antípodas do mundo. “Rocky” era todo feito de esperança e mensagens de superação. “Taxi Driver” apresentava um mundo sombrio, sinistro, doente, decadente, sem salvação.

Travis Bickle era um arauto do apocalipse, um cavaleiro das trevas a lembrar a sociedade que o futuro era nenhum.

Não consigo não associar Travis aos muitos taxistas que, um pouco por todo o planeta, vêm destruindo carros e espancando motoristas Uber.

Não quero generalizar (os taxistas, via de regra, não são loucos, claro) nem entrar na discussão sobre se a atuação do Uber é legal ou não. Apenas parece-me interessante que a imagem de Travis esteja a ser utilizada na criação de memes feito pelos adeptos do Uber (como a que ilustra este texto).

Travis é uma anti-mascote sensacional. Funciona quase tão bem para atacar a causa dos táxis tradicionais quanto o que eles mesmos fazem, desde greves absurdas, fecho de trânsito, espancamentos e ameaças de linchamento.

Uma coisa é certa, com o Uber (ou outra solução análoga qualquer) a guerra dos táxis contra a modernidade está bizarramente perdida. Algumas grandes montadoras estão a testar novos modelos de comercialização dos seus carros. A Audi e a BMW, por exemplo, estão a tentar encontrar uma fórmula que aproxime a compra de um automóvel a algo semelhante ao que está acontecer no negócio da música, uma espécie de Spotify sobre rodas. A ver vamos.

“Are you talking to me?”, grita Travis a ver-se no espelho. Trata-se de uma pergunta retórica. Ele está sozinho a falar para si mesmo. “Are you talking to me?” é o que deveria se perguntar o sector dos táxis. A resposta, se fosse dada por seus clientes, não seria muito bonita.

Ou como diria o meu Tio Olavo: “Fora o motorista, tudo na vida é passageiro”.

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