Opinião: João Coutinho

As dúvidas ladram, e a caravana passa

João Coutinho, North America Executive Creative Director da VMLY&R Nova Iorque
João Coutinho, North America Executive Creative Director da VMLY&R Nova Iorque

E agora, o que faço quando fizer 50 anos?

Faltam dois anos e dois meses para fazer 50 anos. Com o aproximar da data, chegam angústias e questões: o que vem a seguir? Quando comecei a trabalhar, todo o mundo falava que um criativo aos 30 era velho – na altura, a maioria dos diretores criativos tinham à volta de 30 anos. Aos 28, decidi ir procurar emprego no estrangeiro. Enviei o meu portfólio em CD-ROM a um amigo que trabalhava em Madrid. O diretor criativo da agência onde ele trabalhava gostou do meu trabalho, contratou-me e lá fui. Na altura, contavam-se pelos dedos de uma mão os publicitários portugueses a viver fora. Passados três anos em Madrid, voltei para Lisboa e cheguei a diretor criativo aos 35.

Com o passar dos anos, a insegurança de não saber fazer outra coisa senão anúncios é uma constante. Perdem-se anos de vida a pensar nos “e se”. E se aos 30 ainda não sou diretor criativo? Se aos 40 sou despedido, ninguém me dá emprego? E se aos 50 estou ultrapassado e não consigo dar mais? Foram muitos os criativos que vi mudarem de profissão, porque a indústria deixou de ter espaço para eles, ou porque se fartaram e foram ser mais felizes a fazer outra coisa. É preciso ser apaixonado por publicidade para seguir motivado por muitos anos. É uma profissão desgastante com alta taxa de abandono.

Dos 35 aos 40 trabalhei na mesma agência. Tive a sorte de ter aprendido a ser diretor criativo com a Susana Albuquerque, que me deu a mão e me ensinou muito do conhecimento que passo hoje aos mais novos. Formámos uma equipa da qual ainda sinto saudades, ganhámos mais clientes do que perdemos e do ponto de vista de reputação criativa tivemos algum sucesso.

À porta dos 40, quis ir para fora de novo. Tive uma proposta da Ogilvy Brasil, como diretor de arte. Aceitar queria dizer que iria perder toda a autonomia, que iria andar para trás na hierarquia. Aceitei. Foi como começar de novo e pôr tudo à prova. Lembro-me do meu primeiro dia, de olhar para o lado e ver miúdos de 20 anos, ultratalentosos – e eu de cabelo grisalho, sem rotinas de criativo há cinco anos. Ao fim de um mês tive um ataque de ansiedade e quase fui parar ao hospital. Não entendia o que tinham visto em mim, um velhote português a competir com craques brasileiros de 20 anos. Com o passar do tempo, o meu trabalho foi-se impondo e a ansiedade desaparecendo. A minha carreira internacional descolou para voos que nunca imaginei.

Uma curiosidade interessante é que os melhores anos da minha carreira acabam por chegar depois dos 40, dez anos depois de “ser velho para a profissão” pelos padrões de quando comecei. As coisas mudaram bastante e atualmente diria que a média de idades num departamento criativo anda à volta dos 35 anos. A população ativa aqui nos EUA é composta por 30% geração millennial, 30% X e 30% baby boomers. Com a esperança de vida a aumentar, nunca houve altura com tanta diversidade geracional como esta.

E agora, o que faço quando fizer 50? Continuo em publicidade? Vou para o cliente? Começo uma startup? Abro (mais) um hotel em Lisboa? As dúvidas fazem parte do percurso. A curiosidade também. O segredo está em transformar o medo que as dúvidas provocam em combustível para alimentar a curiosidade e seguir explorando. No fim, vai dar tudo certo.

North American Executive Creative Director na VMLY&R Nova Iorque

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
EPA/MICHAEL REYNOLDS

Ação climática. Portugal vai ter de gastar mais de um bilião de euros

Quartel da Graça, em Lisboa. (Fotografia: D.R.)

Revive: Sete hoteleiros na corrida para transformar o Quartel da Graça

Thomas Cook era a agência turística mais antiga do mundo. ( EPA/ARMANDO BABANI)

Thomas Cook declarou falência. 600 mil turistas procuram solução

Outros conteúdos GMG
As dúvidas ladram, e a caravana passa