As expansões Keynesianas são possíveis

Um bom Keynesiano vê
numa recessão uma falta de procura por bens na economia. Combater a recessão
passa por aumentar os gastos públicos para estimular a procura. Se o Estado
gasta 1 milhão de euros numa estrada nova, aumenta em 1 milhão a procura por alcatrão,
areia e trabalhadores. A dívida resultante será paga mais tarde.

Esta política económica
tem méritos e problemas, mas é absurda para Portugal há mais de dois anos,
embora seja constantemente proposta e defendida. Um país que não tem quem lhe
empreste um euro não pode fazer obras a crédito, por muito estimulante que isto
seja. Num país onde falta o capital, usá-lo em obras públicas é desviá-lo do
investimento privado.

Existe uma política
Keynesiana que ainda é possível: fazer as obras, mas cobrando os impostos para
as pagar. Porque o aumento dos impostos retira rendimento às pessoas, e logo
contrai o consumo, esta política não aumenta tanto a procura como as obras financiadas
com défices. Mas, pelo menos é possível e, não sendo ideal, cria na mesma uma
expansão Keynesiana. Exige, claro, que as pessoas estejam dispostas a pagar
mais impostos para financiar esta expansão.

Com a nossa elevada taxa
de desemprego, seguindo esta linha de raciocínio, a despesa devia aumentar num
sector que empregue muitas pessoas. O destino natural do investimento é a
sector da construção, um dos que mais se retraiu com a crise, e muito intenso
em mão de obra. Para além disso, estando 1/3 dos trabalhadores da construção civil
à procura de emprego, faz sentido que os seus salários baixem para que se criem
empregos, o que baixaria o custo das obras.

Olhando em volta, no
entanto, parece já haver um excesso de estradas e rotundas em Portugal. O
Keynesianismo não é desculpa para desperdício em obras inúteis. Para além
disso, tendo em conta o nosso défice externo, queremos canalizar os nossos
parcos recursos para promover as nossas exportações. A pergunta á então:
existirá um conjunto de obras públicas, intensas em mão de obra, que ajudem as exportações,
e que os contribuintes estejam dispostos a financiar?

Ocorre-me uma resposta:
o restauro dos centros históricos do Porto e Lisboa. O Estado é frequentemente
dono destes edifícios e já existem práticas e tradição de fazer obras em prédios
privados nestas zonas com dinheiro público. O trabalho de recuperação de edifícios
antigos é intenso em mão de obra. Ele ajuda a nossa maior indústria
exportadora, o turismo. E faz sentido pagar estas obras
com a contribuição autárquica pois, se forem bem sucedida, a valorização da
cidade aumentará o valor dos prédios de quem lá vive.

Fica por isso a questão
crucial: estão os lisboetas dispostos a pagar um acrescento especial à contribuição
autárquica, com a garantia todas as receitas seriam usadas imediatamente em
obras de restauro e embelezamento da cidade? Se a resposta for sim, então as expansões
Keynesianas são possíveis hoje em Portugal, e a discussão de Keynesianismo
ainda é relevante no debate público.

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