Opinião

As más lições de “A Guerra dos Tronos”

Final de A Guerra dos Tronos

As próximas linhas contêm spoilers sobre a final da série da HBO, uma história sobre sangue e poder que terminou de forma abrupta

Quem diz que o que importa é a viagem e não propriamente o destino nunca atravessou os Sete Reinos reunindo exércitos e esmagando traidores para depois morrer à beira do trono às mãos do sobrinho. Da final de “A Guerra dos Tronos” não se esperava um desfecho satisfatório, mas contava-se com grandeza; e o que nos recebeu neste episódio 73 foi uma sucessão atrapalhada de erros que não faz jus ao legado pioneiro de uma das melhores séries de sempre.

As histórias que contamos são o fio que nos une e a cola que nos prende à humanidade dos outros. A representação é validação. A diversidade é lição. “A Guerra dos Tronos” não é uma história fantástica dominada pelo sobrenatural, é uma história de sangue e poder com doses de tremenda crueldade e realismo. Na vida real, as pessoas nobres não sobrevivem a tudo, os heróis não triunfam sobre todos os inimigos e os tiranos mantêm-se no poder, sugando a vida dos súbditos e manipulando os aliados para obterem os seus fins.

Isto era o desconcertante em “A Guerra dos Tronos”, uma história complexa em que os heróis morriam e os vilões se safavam, por vezes transitando para a área cinzenta em que não são uma coisa nem outra.

Ao tentar fugir a clichés, a série sucumbiu a vários. Depois de passar tantos episódios avançando minuciosamente, galgou de forma atabalhoada pelos momentos mais críticos de uma história fascinante. Daenerys é levada pelo filho-dragão enquanto neva e na cena a seguir já está reunido o Grande Conselho, sem menção de funeral da Rainha, Jon Snow tem barba de três semanas no cárcere (surpresa! não foi morto pelos Unsullied) e Grey Worm também ainda não executou Tyrion Lannister, que passa de preso a grande obreiro da democracia em Westeros. O final adequado até podia ter sido este, se tivéssemos percebido como é que se chegou lá. Assim, deu a entender que havia uma Lista de Coisas A Fazer na final e cada uma foi traçada de forma avulsa.

As más lições deste desfecho da série são várias e mancham a extraordinária construção narrativa de George R.R. Martin.

Primeira: uma mulher que durante anos persegue um objectivo e luta contra tudo e todos no final é ultrapassada pela direita por um homem despreparado para a função e sem especial interesse nela. Com toda a conversa de “partir a roda”, no sentido de iniciar um mundo novo sem os espartilhos que aprisionaram milhões pelas gerações, “A Guerra dos Tronos” terminou tão patriarcal como começou. Cersei morreu soterrada, sem se ouvir um ai; Daenerys morreu em dois segundos pelo punhal de Jon Snow; e o triunfo de Sansa, que deveria ter sido monumental, foi corrido em poucas palavras sem grande explicação. A série teve nas mãos a oportunidade dourada de desenrolar personagens femininas verdadeiramente multidimensionais, com finais poderosos. Em vez disso, optou por tornar a Mãe de Dragões numa histérica que teve o que mereceu e silenciou a mulher mais maquiavélica dos Sete Reinos com pedras na cabeça.

Segunda: os incompetentes acabam, invariavelmente, por conseguir um lugar à mesa. Talvez os autores tenham querido premiar as índoles menos sanguinolentas, afagando o sentido de justiça dos fãs, mas o que mostraram é que Westeros será governado por um rei que não está para ali virado e um conselho em que Bronn (Master of Coin) está mais interessado em reconstruir bordéis que em reparar navios.

Terceira: o poder dos chefes omniscientes tem precedência sobre a coragem e experiência. A ideia por detrás do Rei Bran, The Broken, é que ele é o Corvo de Três Olhos e vê para lá de qualquer outro humano. Mas essa capacidade não parece ter servido de muito salvo em momentos da história em que não haveria outra explicação.

Quarta: ninguém muda. Anos e anos a mostrar a evolução de Jaime Lannister e no final ele volta ao ponto exacto onde estava no início.

Quinta: há tradições imutáveis, mesmo que deixem de fazer sentido. Agora que o Rei da Noite e os seus mortos foram eliminados, a Vigia da Noite não serve de nada. No entanto, Jon Snow e outros renegados são obrigados a continuá-la.

Sexta: aquilo que levamos anos a construir e a conquistar é ultrapassado por forças maiores que nós. De que serviram 8 anos de maquinações de poder em Westeros, se no final a coisa é resolvida com um dragão que destrói a cidade e um rei que é um corvo mágico? Para que serviu o bastardo Jon Snow ser afinal um Targaryen? A roda não se partiu, e este final foi uma tremenda oportunidade perdida.

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