Opinião

As mulheres da Uber

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A diferença salarial existente entre homens e mulheres normalmente leva à conclusão que as mulheres são discriminadas. Embora esta discriminação exista, perceber como ela funciona, de que forma, através de que mecanismos, e se a diferença salarial a revela ou esconde, é mais difícil mas também mais fascinante.

Há duas semanas, descrevi o trabalho de três economistas que mostraram que os dinamarqueses e dinamarquesas sem filhos, no mesmo cargo, com qualificações, idade e experiência idênticas, recebem aproximadamente o mesmo. A diferença salarial entre homens e mulheres na Dinamarca deve-se inteiramente às mulheres com filhos receberem menos.

Um novo artigo de outro grupo de economistas usa os dados dos rendimentos de um milhão de condutores da Uber nos EUA. O algoritmo de remuneração da Uber, assim como a forma como o serviço e a aplicação funcionam, torna muito difícil a discriminação sistemática contra as mulheres. E, no entanto, os homens condutores ganham cerca de 9% mais em média do que as mulheres por hora atrás do volante e com a aplicação ligada. Este valor é semelhante à diferença salarial média na economia americana, o que pode ser uma coincidência, mas também levanta algumas dúvidas sobre a tese da discriminação direta. Porque os dados da Uber são exaustivos, podemos ir mais fundo. A diferença salarial nestes dados deve-se a três fatores.

O primeiro fator, que explica cerca de 20% da diferença, tem a ver com a escolha de lugar de trabalho. Algumas zonas são mais lucrativas para os condutores. Por alguma razão, os homens tendem a escolher essas zonas com maior propensão do que as mulheres.

O segundo fator, que explica cerca de 30% da diferença salarial, é a experiência. Os economistas mostram que um condutor com mais de 2500 viagens ganha cerca de 14% mais por hora do que um condutor com menos de 100 viagens. A vantagem de ter experiência reflete-se na escolha de quando e onde ter a aplicação ligada, assim como na escolha de aceitar pedidos de viagem mais lucrativos. Os homens acumulam mais experiência do que as mulheres porque, em média, conduzem durante mais horas numa semana do que as mulheres. Por isso, ganham depois mais por hora.

O terceiro fator, que explica os 50% em falta, é o mais surpreendente: os homens ganham mais por hora que as mulheres porque… conduzem mais depressa. As tarifas da Uber dependem da distância e do tempo de acordo com uma fórmula que premeia conduzir mais depressa por viagem e assim ter mais viagens.

Os condutores escolhem melhor os locais, trabalhem mais horas, e conduzem mais depressa do que as condutoras. Por isso, ganham mais, não por causa de discriminação direta. Talvez estas três características sejam reflexo de discriminação na nossa sociedade em relação ao risco que as mulheres estão dispostas a correr, ou às horas que dedicam ao trabalho longe da família. Estes estudos permitem apontar no caminho certo para perceber o que está por trás da diferença salarial.

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