As narrativas fantasma

Nos últimos dois anos, a economia portuguesa tem sido uma
verdadeira montanha-russa de emoções. Apesar disto, há argumentos
e debates que se repetem sem fim, mesmo quando alguns deles parecem
fantasmas sem ligação com a realidade.

“A despesa pública tem de ser o motor da economia.” A
encarnação mais infeliz deste argumento foi o manifesto que em
2008, a poucos meses de Portugal precisar da ajuda da troika para
evitar a bancarrota, pedia mais investimento e dívida pública.
Mesmo depois dos cortes dos últimos meses; mesmo depois de dez anos
com a despesa a aumentar continuamente sem nenhum crescimento
económico; mesmo quando umas décimas a mais de défice público
causam aumentos brutais nas taxas de juro e matam o crédito a
privados; continuamos a ouvir esta ideia. O argumento torna-se ainda
mais surreal quando pseudoentendidos leem e repetem sem pensar o que
escreve Paul Krugman sobre os EUA. Lá, as taxas de juro estão a
zero; em Portugal só com muita sorte cairão abaixo de 5% em 2012.

“O BCE tem de intervir no mercado financeiro, imprimir
dinheiro e pôr fim à crise na Europa.” De acordo com esta
narrativa, o arrojo da Fed salvou a economia americana enquanto a
timidez do BCE enterra a Europa. Só que os números mostram que se
imprimiram mais euros do que dólares nos últimos dois anos. A lista
de medidas revela que o BCE tem assumido mais riscos do que a Fed
alguma vez assumiu. E as leis impõem que o BCE pode fazer muito
menos sem apoio dos governos europeus, ao contrário da muito
protegida Fed. É legítimo exigir mais e melhor do BCE, mas a
narrativa segundo a qual o BCE não fez nada até agora é pura
ficção.

“A culpa da crise é de José Sócrates.” A nossa
economia não cresce há dez anos. Despesa e dívida públicas sobem
sem parar há 20 anos. Podemos apontar para o crescimento das
regalias e do tamanho da função pública no tempo de Cavaco Silva;
para a explosão do Estado social sem riqueza para suportá-lo no
tempo de Guterres; para a saída intempestiva de Durão Barroso e a
confusão com Santana Lopes que adiaram soluções quando eram
urgentes; ou para o descalabro nos últimos meses do governo
Sócrates. Mas, as eleições já foram há 7 meses, temos um Governo
estável e há muito trabalho a fazer para reformar o País.

“É preciso privatizar para tirar o Estado da economia.”
Privatizar é fácil, sobretudo quando se vende com pressa e barato.
Mas os portugueses veem os jogos de influência entre Estado e
grandes empresas em mercados. Veem a interferência da política na
regulação do sector energético. Veem a Autoridade da Concorrência
perder caso atrás de caso em tribunal por questões processuais,
resultado de leis mal feitas e juízes mal preparados. Privatizar é
só o primeiro passo; os outros têm falhado sucessivamente em
Portugal.

Como qualquer boa história de fantasmas, estas narrativas vão
continuar a repetir-se. Esperemos é que não distraiam quem tem de
resolver os verdadeiros problemas do País.

Professor de Economia na Universidade de Columbia, em Nova Iorque

Escreve ao sábado

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