Opinião: Ricardo Reis

As palavras e as ações

Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos. REUTERS/Leah Millis
Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos. REUTERS/Leah Millis

Os políticos nos últimos anos são eleitos, avaliados, e julgados em função do que dizem e não do que fazem

Há dois anos que a discussão pública é dominada pelas palavras de Donald Trump. Embora ele minta constantemente, diga hoje uma coisa e amanhã o oposto, e a maioria do que ele diz não leve a nada de concreto, o discurso nocivo e ignorante do presidente americano é notícia quase diária. Em comparação, as ações do seu governo, quando acontecem, acabam por passar quase despercebidas. Na minha experiência, poucas pessoas têm noção do progressivo desmantelamento das regulações ambientais ou do enorme défice público numa altura de expansão económica, mas quase todas sabem o que Trump disse sobre estes e outros temas. Ainda menos, quase ninguém sabe do pouco de positivo que saiu da sua presidência, como o fim da capacidade que as pessoas com rendimentos mais altos tinham de subtrair os impostos locais e estaduais dos seus impostos federais, uma mudança que era defendida há décadas por economistas porque aumenta a justiça e a eficiência do sistema fiscal.

De forma semelhante, as afirmações xenófobas do Presidente húngaro Viktor Orbán, e os seus ataques virulentos aos imigrantes, fazem notícia no exterior incluindo em Portugal. Mas as suas ações para acabar com a independência do Tribunal Constitucional pouco foram reportadas. Nesta semana, uma das melhores universidades da Europa, a Central European University (CEU) de Budapeste, que desde a sua fundação em 1991 se tornou um símbolo dos valores liberais e humanistas do pós-comunismo, teve de fechar e mudar-se para Viena, na Áustria, depois de anos a resistir a impostos e regulações de Orbán que tornaram o seu funcionamento impossível. Muitos intelectuais húngaros reagiram com lágrimas. Poucos sabem também que a economia húngara tem crescido nos últimos cinco anos o dobro do que cresce Portugal, em parte por causa da adoção por Orbán de uma flat tax, com uma taxa única de IRS de 15% para todos com uma cobertura quase universal.

Em relação à Grécia, há alguns anos a imprensa portuguesa verteu rios de tinta sobre o radicalismo de inspiração comunista nos discursos do Syriza. Já as ações do seu governo, ortodoxas e alinhadas com a economia de mercado, pouca atenção mereceram. As afirmações assustadoras de Bolsonaro no Brasil dominaram na última semana. Duvido que as suas ações sejam igualmente escrutinadas nos próximos meses.

Talvez a culpa seja das redes sociais, ou talvez este seja um sinal dos tempos. Mas os políticos nos últimos anos são eleitos, avaliados, e julgados em função do que dizem e não do que fazem. Isto por sua vez alimenta o fenómeno Trump e os seus associados. Político que diz “eu faço X”, e vai variando o X de formas provocadores para atrair o escândalo dos comentadores, consegue dominar as atenções ao ponto de todos lhe darem crédito por ter feito X, mesmo que ele não tenha feito quase nada, ou até por vezes tenha feito um Y que é o oposto.

Com isto, perde a democracia. Na era da informação, o foco nas palavras leva à desinformação das ações, que são bem mais importantes.

Professor de Economia na London School of Economics

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