As razões que me sobram

Às vezes fico pasmada com a quantidade de textos que escrevi sobre filhos. Já lhes perdi a conta e, a muitos deles, o rasto. Sempre que começo mais um, acho que já disse tudo, até que aparece mais uma idade, uma piada, um relâmpago que ilumina uma ideia qualquer vinda não sei bem de onde. Afinal não tem fim. Esta semana, por exemplo, estou chateada com quase todos eles e esta zanga dá-me ideias. Tenho uma razão para cada zanga. Razões que sobram ou não fosse eu mãe - uma mãe sem razão é uma tragédia. Reparem nas minhas razões.

Não me atendem o telemóvel. Imagino o telemóvel a tocar, a palavra mãe a dançar no ecrã e eles a bufar "o que é que esta quer agora?". Silêncio, que eu já te atendo. E eu, que sou orgulhosa, só de imaginar aquela cena e ler aquele pensamento, irrito-me sozinha. "Ah, Inês, mas isso é um clássico, são todos iguais", como se os outros fossem desculpa para alguma coisa. A minha mãe sempre disse "lá porque os outros são parvos não quer dizer que vocês sejam". Agora faz sentido, mas naquela idade o objetivo era sermos todos igualmente parvos. Ainda assim, ofendi-me, coisa que já vinha de ontem.

Eu conto: na véspera disseram-me que eu não tinha graça nenhuma, que as minhas piadas eram só para os chatear. Isto depois de eu ter baixado as defesas de mãe e de ter descido ao nível deles em termos de piadas parvas. Ninguém me bate em piadas parvas. Mas o arrogante do miúdo, disse que as minhas piadas eram parvas. Ofendi-me. E ninguém percebeu porquê. A minha mãe também diz que o melhor a fazer perante uma birra é não ligar. Quando era pequena aquilo enfurecia-me; por mais portas que batesse e por mais cara de amuada que fizesse, ignoravam-me até passar a birra. Parece que eles já sabiam das coisas que a minha mãe dizia e deixaram-me sozinha na minha birra. "A mãe deve estar chateada, porque não lhe demos presente do Dia da Mãe", ouvi dizerem. Recebi um presente do mais novo, da escola, os outros já não frequentam anos letivos indicados a presentes do Dia da Mãe. Mas isso não me chateou, sempre soube que são os professores que dão os presentes, faz parte da matriz curricular. Mas adiante que ainda tenho mais razões para contar.

Devia ser proibido estudar em casa. Sentia-se cá fora a tensão que crescia dentro do quarto e eu, a medo, ofereci ajuda na preparação para o teste. Havia folhas por todo o lado, o quarto virado ao contrário e das orelhas dela saía fumo em sinal de raiva, caso ela fosse um desenho animado - que até parecia. Calma, é só um teste. Bastou isto para que a fúria se transferisse da matemática para mim, que não tenho nada a ver com a descoberta das funções. Ofendi-me mais uma vez, coisa que já vinha de trás, como sabem. Comigo não falam assim e não quero saber se há teste, ou não há, ou se o mundo vai acabar amanhã. Até porque aquele quarto tinha de ser arrumado, ordenei em jeito de vingança. Respondeu que nem sequer me tinha chamado, como quem diz "vai chatear outro".

Acabei a semana a mandar o mais novo de castigo, porque fez uma birra e eu não a ignorei, ao contrário do que aconselha a minha mãe. Agora não lhe falo. Apanhou uma fúria porque os trabalhos de casa são uma porcaria e o lápis foi pelo ar e as folhas quase se rasgaram. Não conto mais nada. Restam-me dois para me zangar. Só que não me tenho cruzado com eles. Será por isso?
*Jurista

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