Opinião: Ricardo Reis

Às vezes, até viver é um ato de coragem

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O dia-a-dia de um economista investigador consiste em explorar diferentes argumentos, testá-los e validá-los com dados.

Há 13 anos propuseram-me escrever uma coluna na imprensa portuguesa. Porque vivia nos EUA, tinha dificuldade em perceber suficientemente bem o contexto à volta dos casos do dia em Portugal para poder comentá-los. O meu estilo de escrita não é particularmente distinto. Por fim, os jornais portugueses tinham (e têm) ótimos autores de colunas que se insurgem com emoção sobre eventos, afirmam com convicção que só há uma escolha num assunto complicado, ou ridicularizam os poderosos com piada ou violência. Não havia nada que eu pudesse acrescentar.

Na altura, conversei com um colega com quem às vezes jogava ténis e que contribuía com regularidade no The New York Times. Ele explicou-me que a sua estratégia era escrever colunas de opinião com pouca opinião. Ele queria dizer que artigos de jornal que apresentassem argumentos originais numa discussão, ou que relatassem padrões importantes nos dados podiam ser mais valiosos para os leitores do que servir-lhes uma opinião numa bandeja. O dia-a-dia de um economista investigador consiste em explorar diferentes argumentos, testá-los e validá-los com dados. Nessa função, explicava-me ele, eu podia trazer algum valor. Na imprensa portuguesa não havia praticamente nenhum exemplo deste tipo de coluna. Ele tinha razão, e hoje vejo com agrado vários colunistas que seguem este estilo de intervenção pública.

Uns meses depois, começámos a discutir uma questão importante: será que os bancos centrais independentes fazem um melhor trabalho do que quando estão debaixo do controlo dos ministérios das Finanças? A maioria dos macroeconomistas acha que sim. Mas novamente este colega abriu-me os olhos para o facto de esta conclusão vir de argumentos poderosos e muita convicção, mas pouca evidência clara que a suportasse. Esta era a sua especialidade de investigação: descobrir novas formas de testar empiricamente verdades científicas estabelecidas, sem medo de as rejeitar. Ele olhou para as contratações de cadeias de fast-food perto de fronteiras entre Estados com políticas diferentes para aprender que aumentos modestos no salário mínimo têm pouco efeito no desemprego. Ele comparou gémeos com diferentes níveis de escolaridade para separar o efeito dos genes ou da educação nos salários futuros. Ele mostrou que os terroristas vêm de famílias ricas e educadas no seu país, pelo que não é a pobreza que os impele ao radicalismo. Mais do que suficiente para ser um claro candidato ao Prémio Nobel.

Entre a investigação e o ensino, ele tirou licenças para servir nos governos de Bill Clinton e Barack Obama. Ambos nesta semana escreveram longos textos sobre o seu admirável serviço público. Sempre com um sorriso nos lábios, ele era uma pessoa generosa e muito próxima dos seus dois filhos já adultos. Era admirado por milhares de economistas pelo mundo fora. Há uma semana, suicidou-se. Chamava-se Alan Krueger, tinha 58 anos, sofria, apesar de todo o seu sucesso, e os amigos não sabiam.

Professor de Economia na London School of Economics

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