Opinião: Carlos Brito

Astérix e Boris Johnson

Fotografia: Sebastien Nogier/EPA
Fotografia: Sebastien Nogier/EPA

Tal como na aldeia de Astérix, Obélix e Cª, os britânicos também detêm uma poção mágica que lhes dá uma força extra: a ilusão de que são um império

Tenho mixed feelings em relação ao processo conducente ao Brexit. Não em relação ao Brexit em si – pois, como bom europeu, estou convicto de que vamos ficar todos a perder – mas sim no que concerne ao modo de o atingir.

Por um lado, visto deste canto da Europa, a forma como tudo está a decorrer parece surreal e incompreensível. Mas, por outro, não posso deixar de tomar em consideração que o Reino Unido é um país com uma democracia consolidada por séculos de História. O que me leva a questionar se não haverá alguma coisa que me esteja a escapar.

Certamente que sim. Vou, todavia, salientar um dado que considero relevante para a sua compreensão: os britânicos são ilhéus. É verdade que vivem numa ilha grande – a que, na verdade, se acrescenta a parte norte de uma outra ilha ali ao lado – mas não deixam de o ser. O que significa que olham com extrema desconfiança tudo o que vem de fora e, em especial, do território continental que lhe está mais próximo.

Fazem-me lembrar aquela aldeia de irredutíveis gauleses cercada de legiões romanas. Aqui não é bem uma aldeia mas uma ilha que procura resistir ferozmente às investidas das “legiões” europeias continentais que, na sua ânsia “civilizadora”, irão pretensamente acabar com o bom e velho British way of life.

E, tal como na aldeia de Astérix, Obélix e Cª, os britânicos também detêm uma poção mágica que lhes dá uma força extra: a ilusão de que são um império. Já não o são, mas ainda continuam a pensar que o são. O que significa que a “poção mágica” do Reino Unido é bem menos eficaz do que a original criada pelo druida Panoramix.

Para quem viveu, como eu, quatro anos em Inglaterra e que tem uma admiração especial pela organização, princípios e valores britânicos, tudo isto parece uma aventura da banda desenhada. O problema é que se trata de uma história com forte impacto na História do Velho Continente. Duvido, por isso, que o final se traduza numa grande jantarada onde o único ausente é o bardo.

 

Carlos Brito, professor da Faculdade de Economia – Universidade do Porto

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