Até quando vamos continuar a fingir?

Não é só o tom, fazendo acompanhar de trompetes os anúncios de medidas pífias para as vender com uma relevância que estão longe de ter. É já mesmo a desonestidade intelectual de quem no-las tenta vender como soluções e desenvolvimentos que não passam, na verdade, de jogos de fumo. Ficam bem no papel, fazem brilhar quem os lê ao microfone e em frente às câmaras de televisão, mas não melhoram nada na vida das pessoas.

Como quando se anuncia o reforço do abono de família de forma a "garantir que todas as crianças têm, por ano, pelo menos 600 euros de apoio do Estado", mas isso na verdade representa um extra que se materializa em 1 a 19 euros e apenas para os mais pobres.

Ou quando se promete aplacar os efeitos da inflação mas na prática isso traduz-se em devolver uns meros euros à conta bancária de quem atestou o carro - quem optou por pagar o dentista do filho ou comprar peixe no supermercado, prescindindo de usar o carro nesse mês, teve benefício zero.

Ou quando se anuncia, pela enésima vez, creches gratuitas para todas as crianças, como fez o primeiro-ministro no debate do Estado da Nação, antes de fazer as malas para ir pôr os pés de molho, declarando que estava fechado o acordo com as Misericórdias e a Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade - assumindo que só recorrendo a privados e setor social é possível responder a uma promessa que o Estado nunca foi capaz de cumprir porque não tem os meios nem as infraestruturas. "A medida vai entrar em vigor a 1 de setembro", vincou Costa, uma semana antes de se saber que, afinal, os pequenos que não tiverem vaga no setor social só lá para janeiro (e com sorte) é que poderão pôr os filhos em creches gratuitas. Até lá, pagam as mensalidades e é se conseguirem uma escola que tenha vagas para as suas crianças, o que não é uma certeza.

Há ainda neste governo rasgos de incrível generosidade, como a ideia de dar apoio aos mais pobres no meio de uma crise que deixou tudo brutalmente mais caro. Mas depois vai-se a ver e o "Apoio Extraordinário às Famílias Mais Vulneráveis", desenhado para chegar a 830 mil pessoas, afinal resumia-se a um cheque único de 60 euros e o equivalente a meia botija de gás. E a "Bilha Solidária" tinha tamanha burocracia associada ao programa que muito poucos lá chegaram. Em vez de 800 mil, foram cerca de 8 mil as famílias ajudadas, mesmo porque muitas delas não faziam sequer ideia que o apoio existia.

E os mesmos milhões de euros vão circulando entre programas anunciados e pouco ou nada concretizados. Sem que haja quem peça contas às promessas por cumprir.

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