Opinião: Carlos Brito

Aumento de salários, já!

Fotografia: Pedro Correia/Global Imagens
Fotografia: Pedro Correia/Global Imagens

Salários anormalmente baixos acabam por funcionar como almofada para, demasiadas vezes, amortecer e esconder situações de falta de competitividade

Sabe-se que há duas maneiras para as empresas serem competitivas: através da denominada liderança pelos custos ou pela diferenciação. Na primeira hipótese, o grande argumento junto dos clientes é o preço. E, como a própria expressão sugere, o fator crítico de sucesso é ter custos baixos – o que pode ser conseguido através do acesso a recursos baratos e/ou pelo desenvolvimento de processos que asseguram grande eficiência operacional.

A outra opção passa pela diferenciação. O argumento de venda não reside tanto no preço, mas numa ou em algumas das componentes da oferta que potencialmente acrescentam valor. A qualidade e o design do produto, o serviço, a localização dos pontos de venda, o magnetismo emocional da marca, a forma como a empresa comunica e interage com os clientes são alguns dos atributos, dentro do vastíssimo leque de fatores de diferenciação, que podem sustentar uma proposta de valor única e distinta.

Mesmo no caso da diferenciação, as questões de eficiência, tanto ao nível do acesso a recursos como dos processos, não deixa de ser relevante. Por outras palavras, não é só à Ryanair que interessa ter custos baixos – o mesmo acontece com a Louis Vuitton. A única diferença é que no primeiro caso se trata de um requisito base de competitividade, enquanto no segundo a sua relevância se coloca “apenas” no campo da rentabilidade.

Ter acesso a recursos ao mais baixo custo possível parece, pois, ser uma condição de sustentabilidade de qualquer negócio, independentemente da sua estratégia no mercado.

Parece, mas não é!

Há dois recursos cujo custo anormalmente baixo pode levar a más decisões económicas: o capital e o trabalho. O preço do dinheiro é dado pelas taxas de juro vigentes numa economia. E se é bom as empresas poderem aceder a financiamento barato, a verdade é que taxas de juro invulgarmente baixas podem conduzir a más opções, levando empresários e gestores a investirem em negócios pouco rentáveis.

Quanto ao fator trabalho, algo de idêntico se passa. O acesso a mão-de-obra qualificada – e por vezes altamente qualificada como acontece em Portugal – pagando baixos salários (quando comparados com os de trabalhadores com qualificações idênticas de outros países nossos congéneres no espaço europeu) pode conduzir a um relaxamento no esforço empresarial para valorizar os seus produtos e serviços no mercado global.

Em suma, salários anormalmente baixos como os que hoje são praticados em Portugal (a começar pelo salário mínimo) acabam por funcionar como almofada que demasiadas vezes apenas serve para amortecer e esconder situações de falta de competitividade. Por isso, e porque quero viver num país ao nível dos melhores com empresas altamente rentáveis e competitivas nos mercados mais exigentes, só posso proclamar: aumento de salários, já!

 

Carlos Brito, vice-reitor da Universidade Portucalense

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Outros conteúdos GMG
Hoje
Foto: Leonel de Castro/Global Imagens

Famílias com 12 meses para pagarem rendas do estado de emergência

(João Silva/ Global Imagens)

Papel higiénico, conservas:em 2 semanas, portugueses gastam 585 milhões no super

coronavírus em Portugal (covid-19) corona vírus

140 mortos e 6408 casos confirmados de covid-19 em Portugal

Aumento de salários, já!