Opinião

Aviões a 100%. Expliquem-me, como se eu fosse uma criança!

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As mensagens para que mantenhamos a distância social, ou física, proliferam em todos os meios e serviços e, bem, uma vez que se teme uma segunda vaga de contágio à medida que o desconfinamento avança.

Ainda poderemos vir a apanhar alguns sustos neste processo de desconfinamento. Veja-se o crescente número de casos no centro logístico da Azambuja. O plano tem de continuar a ser gradual e prudente. Do comportamento de cada um e da nossa crescente confiança, e até da nossa coragem, vai depender o retomar da atividade económica e da criação de riqueza para o país.

Todos os sectores se preparam, o melhor que podem, para tirar a economia do ventilador. Os hotéis trabalham para conquistar o selo Clean & Safe e abrir portas no mês que vem. O pequeno comércio e os restaurantes já abriram, em meados de maio, e com regras apertadas e fiscalização permanente, em que as mesas têm de estar a dois metros de distância no interior dos estabelecimentos (exceção feita para as esplanadas, sem limitações). É louvável o esforço dos hoteleiros, dos lojistas e dos empresários da restauração para garantir as melhores e mais seguras formas de voltar a atender e a servir os seus clientes.

Também as construtoras, e muitas delas nunca pararam, fizeram um esforço de enquadramento face à covid-19. Por exemplo, muitas delas passaram a ter custos superiores no transporte dos seus trabalhadores, optando por aumentar o número de carrinhas em circulação e limitando o número de pessoas por cada veículo, a fim de evitar os contágios.

Os teatros, cinemas e outras salas também estão a fazer tudo para se ajustarem e ficarem aptos a reabrir na nova fase, em junho. Tal como a restauração, também as casas de espetáculos irão prescindir de muitas receitas por não ser permitido ocupar todas as cadeiras disponíveis.

E as praias que tanto têm dado que falar? As normas também serão apertadíssimas, além da toalha de banho e do chapéu de sol, a partir-me dia 6 de junho os banhistas terão de levar um livro de instruções com 78 normas. Entre elas estão as distâncias de dois metros, o limite de pessoas por chapéu de sol, a não permissão para jogar raquetes de praia, etc. A lista é extensa e não vai facilitar a vida aos veraneantes. Muitos nem chegarão a pisar a areia se o semáforo acender vermelho e a lotação estiver no máximo.

Estes são apenas alguns exemplos dos esforços que são pedidos a vários agentes económicos, e aos cidadãos, e que até aqui têm sido bem atendidos.

Se não pode haver exceções (apesar de já termos assistido a um primeiro de maio excecional), expliquem-me, como se eu fosse uma criança, por que razão nos últimos dias o governo recuou e permite agora que os aviões transportem a lotação máxima de passageiros? Um avião não é mais seguro do que uma praia em termos de risco de contágio. Um avião também não é uma esplanada, mas um sítio fechado – como é um restaurante e no qual são obrigatórios os dois metros de distância entre mesas. Permitir a lotação máxima num avião significa, como sabe quem habitualmente viaja neste meio de transporte, voltar à chamada ‘lata de sardinha’, com os passageiros colados uns aos outros e a respirar um ar forçado, durante horas a fio.

E não deixa de ser contraditório encontrar outdoors espalhados pelos aeroportos a apelar ao ‘distanciamento social’ e, afinal, dentro da aeronave vai tudo junto, como era no ‘velho normal’. Expliquem-me isto, como se eu fosse uma criança.

Permitir a lotação máxima dos aviões é uma decisão que poderá traduzir-se num erro tremendo, com um custo caro a pagar já num futuro muito próximo. Por outras palavras, corrobora esta minha convicção o médico Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública e médico de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge.

Abrir esta porta ao contágio por coronavírus é ir contra todas as recomendações da Organização Mundial de Saúde, conhecidas até hoje. Talvez nem se trate só de uma porta, mas de um grande portão, tendo em conta a circulação por vários países dos utentes do transporte aéreo.

O governo estará a dar o seu melhor no combate a esta pandemia e a crescente popularidade do primeiro ministro revela o reconhecimento de uma boa parte da população. Porém, é preciso ter muita cautela com algumas medidas que são económicas, mas podem ter um preço alto na saúde. Nunca, como agora, economia e saúde tiveram tantos vasos comunicantes.

É fácil compreender o sufoco em que vivem hoje as companhias aéreas e é fácil imaginar as fortes pressões que essas mesmas companhias estarão a exercer sobre o governo português e sobre as autoridades europeias para uma reabertura a 100%, mas é muito difícil entender esta medida. A menos que, com transparência, seja explicada aos portugueses e aos europeus como se fossemos todos umas crianças.

 

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