Bacalhau basta?

A crise pandémica teve impacto setorial muito diferenciado. As atividades ligadas ao turismo foram das mais afetadas. Nos últimos anos, o seu desenvolvimento havia sido responsável por um aumento nas exportações (as vendas a estrangeiros, mesmo que ocorram no país, são assim classificadas) que muito ajudou nas contas nacionais e no crescimento económico. Atividades intensivas em trabalho deram emprego a muita gente, parte da qual imigrante. O boom refletiu-se nos resultados, com o Banco de Portugal a colocar o setor da hotelaria e restauração no topo da rentabilidade. A euforia nem sempre foi boa conselheira, como se viu aquando da contestação de alguns "empresários" da restauração, vários dos quais associados a aplicações ostentatórias dos ganhos.

Como sempre, a média esconde situações muito díspares. A restauração de bairro ou o hotel de província pouco terão beneficiado com essa onda e, por isso, terão sido os menos capazes de fazer frente às consequências da pandemia. Os outros, desde que tivessem tido juízo, ou não fossem apanhados no meio de novos investimentos, haveriam de ter um pé-de-meia para aguentar o primeiro impacto e, mesmo, o segundo. Os apoios do Estado fizeram o resto. As taxas de falência, muito abaixo do que seria de esperar, e os poucos encerramentos voluntários, demonstram que, mesmo no meio da habitual lamúria, se manteve a esperança de que os bons tempos voltariam e a recuperação aconteceria.

E a resiliência? Um pouco por todo o país há excelentes empreendimentos que os portugueses redescobriram. A lei da oferta e da procura ditou o aumento de preços. E o serviço? Soube de situações, mesmo em unidades de luxo, em que a qualidade, alimentação incluída, ficou aquém do desejável, em especial quando as taxas de ocupação eram elevadas. "Falta pessoal qualificado", não é explicação. Não o sabiam? Por que foram além do que eram capazes? Por incompetência? Ganância? Os cínicos dizem-me: os clientes são portugueses, não reclamam! Não acredito! Mas que há ainda muito para melhorar, há! A concorrência não dorme...

Alberto Castro, economista e professor universitário

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