Opinião

Bancos face ao precipício, Portugal à beira do abismo

(Leonardo Negrão / Global Imagens)
(Leonardo Negrão / Global Imagens)

Os políticos pró-governamentais do PS e do Bloco de Esquerda e alguns órgãos de comunicação social com eles alinhados mostram-nos um país em recuperação, contente e afirmativo, um país muito diferente daquele em que muitos portugueses vivem mergulhados e que se caracteriza pelo desemprego, pelas dificuldades financeiras, pelo aumento da fome e pela incapacidade de honrar compromissos assumidos com os senhorios, com os empregados, com a segurança social, com o fisco e com os bancos. A imagem cor-de-rosa não ajuda a identificar os problemas, a debate-los e a resolvê-los.

Uma crise, aparentemente invisível mas bem palpável, instalou-se no país e só não assumiu já as proporções que verdadeiramente tem porque se tomaram algumas medidas de adiamento de pagamentos, nomeadamente moratórias de crédito.

Prevendo que no final da moratória as empresas e as famílias não possam pagar as prestações adiadas o Governador do Banco de Portugal alertou para o efeito precipício: valores colossais (na entrevista com o governador referem-se números da ordem dos 30 mil milhões de euros) de créditos a vencer num período relativamente pequeno sem que sejam pagos. Um verdadeiro tsunami. O sistema financeiro português por terra.

Como esperar que as empresas com mercados minguados como o do turismo, com dificuldades de obter as matérias-primas, muitas delas parte de cadeias de produção multinacionais ainda não totalmente reabertas, possam fazer os pagamentos em falta? Como esperar que muitas famílias desempregadas, possam agora pagar as prestações em atraso? Naturalmente que teremos muitos incumprimentos, como corretamente antecipa o Governador do Banco de Portugal.

Para evitar este desastre duas propostas. Primeira: pôr o Estado a garantir, total ou parcialmente, os créditos em moratória. Isto é transferir o “buraco” dos bancos para o orçamento de Estado primeiro e depois para a dívida, provocando um longo, muito longo período de austeridade. Segunda: reestruturar esses créditos por um prazo ampliado de pelo menos cinco anos. São duas propostas complementares e não funciona uma sem a outra.

Esta solução, protege os depósitos mas empurra-nos para um recessão prolongada e, não para a tão propalada recuperação em V.

O sistema financeiro está novamente no epicentro da crise. Um sistema frágil, ainda não totalmente recuperado do choque de 2008, ainda recheado de ativos “tóxicos” (crédito malparado) e já sob uma nova avalanche de incumprimentos.

Com a agravante de se tratar de um sistema financeiro povoado por bancos estrangeiros, maioritariamente espanhóis, que não têm um compromisso histórico com a economia portuguesa. É pois de prever novo período de “seca” em termos de crédito com tudo o que isso acarreta de redução de investimento na modernização da base tecnológica da economia portuguesa.

O precipício da banca é o abismo do país.

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