Opinião

Bioindústrias: o player invisível do pós-covid 19

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Michael Longmire / Unsplash

A crise provocada pela COVID-19 veio lembrar a nossa sociedade do quão essencial é o investimento em ciência, como verdadeiro motor de desenvolvimento tecnológico e capaz de fornecer soluções em crises mundiais como esta, com especial ênfase na biotecnologia e ciências da vida. Tem sido claro o acompanhamento noticioso de temas como testes de diagnóstico, do estado do desenvolvimento de vacinas, da avaliação do efeito de moléculas antivirais, bem como da discussão de abordagens de saúde digital para uma recolha e tratamento de dados em grande escala.

Todos os dias ouvimos falar de meios de diagnósticos, de métodos de biologia molecular como RT-PCR, de novas moléculas que estão a ser avaliadas, das fases de desenvolvimento para uma nova vacina, de testes clínicos, entre muitos outros termos do mundo das ciências da vida que até hoje não faziam parte do léxico comum. A biotecnologia, apesar de parecer invisível, está no nosso dia-a-dia: no estudo de doenças, no desenvolvimento de novos medicamentos, nos testes rápidos de diagnóstico, mas também nas enzimas dos detergentes que lavam a baixas temperaturas, na produção de ingredientes e compostos ativos e até em muitas novas fontes de proteína para alimentação animal e humana, sendo por isso uma ferramenta essencial para atingir os desafios da sociedade atual, tanto na saúde como na sustentabilidade.

Nas últimas semanas tem acontecido uma forte mobilização da comunidade científica e de empresas tecnológicas portuguesas. Alguns desses exemplos são a criação de testes de diagnóstico para COVID-19 pelo Instituto de Medicina Molecular em colaboração com a fornecedor português NZYTECH, o lançamento de um teste diagnóstico rápido pela BioSurfit, o estudo de proteínas com recurso a métodos computacionais pelo Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier, a utilização de métodos de inteligência artificial para avaliar novas moléculas pela Universidade do Minho, o desenvolvimento de um novo tratamento com recurso a anticorpos pela start-up CellmAbs, uma nova terapia para evitar mortes por falência renal pela empresa tecnológica LiMM, a mobilização da capacidade instalada no Instituto Gulbenkian de Ciência para desenvolver novas linhas de investigação centradas no estudo da suscetibilidade genética de cada indivíduo ao vírus, na tolerância à doença ou na própria evolução e mutações que o vírus está a desenvolver, entre muitas outras iniciativas, juntando universidades, centros de investigação, hospitais de referências e muitas vezes pequenas empresas tecnológicas.

É vital preparar um mundo pós-COVID-19 no qual devemos ambicionar ter um papel ativo e não ser apenas um recetor de tecnologias e produtos dos quais não controlamos a sua disponibilidade, a sua cadeia de produção, nem somos destinatários prioritários. As bioindústrias e a biotecnologia, que eram antes conceitos vagos para o cidadão comum, são ao dia de hoje uma necessidade prioritária para uma economia ao serviço da saúde e do bem-estar, e uma oportunidade para potenciar a ciência Portuguesa com a criação de negócios com base em conhecimento e de ambições globais.

* Simão Soares, presidente da P-BIO, Associação Portuguesa de Bioindústria

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