Opinião

Blindar a economia (III)

Pedro Reis,  Head da Banca Institucional do Millennium BCP e ex-presidente da Aicep.
(Reinado Rodrigues/Global imagens)
Pedro Reis, Head da Banca Institucional do Millennium BCP e ex-presidente da Aicep. (Reinado Rodrigues/Global imagens)

Pedro Reis escreve sobre o que é preciso fazer para enfrentar a crise e levantar a economia no pós-pandemia.

Depois de um primeiro artigo sobre como “Proteger a economia” e de um segundo sobre como “Reinventar a economia”, penso que vale a pena tentar perscrutar os moldes como se vai operacionalizar uma das tendências assinaladas em ambos os textos que se prende com a previsível crescente busca de autonomização estratégica por parte das diversas economias (decoupling) sem que tal dinâmica atinja os fundamentos e os fundamentais dessa enorme conquista para o bem-estar e o desenvolvimento equilibrado e democrático da humanidade que tem representado o processo de globalização das últimas décadas.

A meu ver trata-se assim, não de combater ou de fazer recuar a globalização, mas sim de a ajustar a uma nova realidade e a um novo quadro de valores que vai emergindo aos poucos; afinando-a e ajustando-a em várias dimensões e parâmetros sendo que uma delas é justamente a criação de “linhas de defesa” adicionais que impeçam a derrapagem ou implosão do comércio mundial pela excessiva dependência em relação a uma zona do globo, seja ela qual for.

Acredito que o rescaldo desta crise vai assim trazer uma blindagem das várias economias em relação a um défice de autonomia (ou a um excesso de dependência) de setores críticos e de áreas nevrálgicas para a soberania dessas economias nacionais ou regionais. Essa blindagem vai obrigar os Estados, os blocos económicos e as empresas a procurarem e a desenvolverem ativamente caminhos críticos alternativos, mesmo que paralelos, no que toca ao desenvolvimento de competências internas, ao entrosamento com parceiros próximos e à articulação com fornecedores estratégicos mais locais.

Parece-me de esperar que assistamos nos próximos anos, a um reforço de redes de parceiros mais distribuídas (e até sobrepostas se necessário) de forma que as empresas possam apoiar se em múltiplos ecossistemas, com base em stocks e ativos reforçados e mesmo duplicados, dispersando centros de decisão e centros operativos por vários teatros de operações, mesmo que tal implique um trade off entre especialização e autonomização, entre complementaridade e independência, entre eficiência e eficácia.

Penso inclusivamente que esta nova dinâmica trará, da parte das políticas públicas, uma atenção redobrada à reindustrialização, à reconversão de cadeias inteiras de valor, ao planeamento plurianual de apoio ao desenvolvimento de certas competências, à retenção de talento nacional, e à revisitação da matriz de incentivos e benefícios ao investimento para promover centros de competências e decisão nacionais ou regionais.

O grande desafio desta recalibragem do processo de globalização que acredito que se aproxima é que ela não atinja aspetos cruciais do mesmo, como sejam a consciência e preservação da importância crucial da articulação e colaboração mundial em múltiplas vertentes (materializada e suportada em todo um espantoso edifício de acordos e regulamentações internacionais com um equilíbrio muito fino e com inúmeros vasos comunicantes), do alcance fundamental de instituições com âmbito global, e da importância da agenda colaborativa a nível político, social, académico e científico nas suas múltiplas dimensões e parâmetros.

Não é um equilíbrio fácil de preservar, mas é um balanceamento essencial de assegurar até porque se há lição que esta pandemia nos procurou trazer é a de que estamos nisto juntos.

* Pedro Reis, Head da Banca Institucional do Millennium BCP e ex-presidente da Aicep

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