Opinião: Ricardo Reis

Blockchain e moeda digital não são o bitcoin

Fotografia: DR
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Diferentes comentadores concentram-se em diferentes partes, levando a confusão nas discussões sobre as moedas digitais e a um foco errado no bitcoin.

O bitcoin tem quatro características: permite pagamentos anónimos (tal como a moeda), é criado de forma descentralizada (tal como os depósitos nos bancos comerciais), regista os balanços de cada um numa base de dados difícil de violar e alterar (tal como os depósitos no banco central), e não tem forma física mas apenas digital (tal como os cartões de débito e crédito). A novidade não está em nenhuma das características, mas na sua combinação. Diferentes comentadores concentram-se em diferentes partes, levando a confusão nas discussões sobre as moedas digitais e a um foco errado no bitcoin.

Contra o anonimato, muitas das transações com bitcoin são usadas para atividades ilegais. Mas, ao mesmo tempo, o uso do bitcoin espalhou-se na Venezuela porque o seu anonimato permite escapar à opressão política. Sem um mercado negro, que só existe com uma forma de pagamento anónima, há menos crime mas também não há revoluções. Durante séculos, essa forma de pagamento era com notas, que não têm o nome de quem paga ou recebe. Hoje, quando as pessoas preferem usar dinheiro digital, e em países como a Suécia e a Noruega a moeda física já não é sequer aceite nas lojas, é de esperar que surja uma nova moeda digital. O bitcoin é um mau exemplo deste potencial. A forma descentralizada como é criado está mal desenhada e leva a flutuações absurdas no seu valor. Mas está no horizonte uma moeda anónima digital global que seja parcial ou totalmente centralizada, levando a um valor estável e fiável.

Por sua vez, a inovação tecnológica da base de dados usando a ideia de blockchain é intelectualmente importante. Ela permite que possam manter-se registos de quem tem quanto, e de transações de forma segura e robusta. Um exemplo vem dos registos prediais. As conservatórias mantêm um registo de quem é o dono de um terreno e quando o comprou, mas estes registos são frequentemente incompletos, sujeitos a fraude por funcionários menos escrupulosos, e por vezes perdem-se quando um incêndio ou uma inundação destrói o registo. Perde-se muito tempo em tribunal a lidar com estas disputas. Um registo predial digital assente na blockchain, mas gerida por um governo e sem anonimato, é uma possibilidade fascinante. Igualmente, há milhares de produtos financeiros exóticos em que a rapidez e a robustez com que se pode criar um mercado usando esta tecnologia poupa custos com intermediários.

No entanto, para a maior parte das aplicações monetárias, que envolvem milhões de transações de pequenas quantias, a tecnologia blockchain é terrivelmente ineficiente nos recursos que consome. Novamente, o bitcoin é uma péssima aplicação deste potencial.

As partes que constituem as novas moedas digitais não são separadamente novas, e a sua combinação no bitcoin é uma bolha de propaganda com pouca viabilidade. Mas as inovações associadas têm potencial real para revolucionar os sistemas de pagamentos, mercados financeiros e os registos de propriedade.

Professor de Economia na London School of Economics

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