Opinião: Ricardo Reis

Bogle e os fundos de índice

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"Hoje, a maioria das pessoas investem na bolsa usando fundos de índice em centenas de mercados pelo mundo fora".

Na quarta-feira, morreu John Bogle. A maioria dos leitores nunca ouviu falar deste americano, fundador da companhia financeira Vanguard que gere aproximadamente cinco biliões de dólares, ou cerca de 23 vezes o valor do PIB português. Depois de ler a última frase, muitos leitores provavelmente assumem que ele é um ricaço banqueiro, cujo legado social é na melhor das hipóteses zero. Mas, na realidade, Bogle está no topo das pessoas que mais influência tiveram no mercado de capitais moderno.

Nos anos 1960 e 1970, quem quisesse investir na bolsa e não tivesse tempo para investigar quais eram as melhores ações contratava um gestor para investir o dinheiro compondo uma carteira de investimentos. Havia centenas de gestores, cada um prometendo maiores retornos devido às sua extraordinária capacidade de escolher as melhores ações. Neste clima, dois grandes economistas, Paul Samuelson e Eugene Fama, usaram dados e teoria para chegar a uma conclusão fundamental: em média, os gestores de conta conseguem retornos abaixo do que era possível simplesmente comprando as principais (ou todas) as ações no mercado em proporção ao seu valor total em bolsa. Esta alternativa exigia zero competências ou informação. Para além disso, olhando para carteiras individuais e tirando a média da sua performance durante vários anos seguidos, todo e qualquer retorno acima do mercado era explicado por a carteira ter um risco acima do mercado. Os gestores de conta acrescentavam valor negativo nas comissões que cobravam.

Este resultado levou a que a performance de qualquer companhia de investimento seja hoje julgada contra o retorno do mercado, e em termos do valor que acrescenta para lá do risco relativamente ao mercado (o que vulgarmente se chama de “alfa” da carteira). Fez que se perceba que são muito poucos os investidores que acrescentam valor durante um período prolongado de tempo. Levou a que se percebesse que os mercados financeiros são suficientemente eficientes para não permitirem enriquecimento fácil e, ao mesmo tempo, também que se percebesse onde e porque são ineficientes.

A consequência prática deste resultado era de que a maioria das pessoas deviam comprar o mercado. Mas não havia uma forma simples e barata de o fazer. Bogle criou a Vanguard, para vender fundos de investimento que nada mais faziam do que deter em carteira o mercado. As comissões eram muito baixas porque praticamente não eram precisos gestores de conta e os retornos eram transparentes. Quando Bogle ofereceu este produto, em 1976, falhou, não conseguiu atrair investidores suficientes. Mas ele continuou a insistir. Hoje, a maioria das pessoas investem na bolsa usando fundos de índice em centenas de mercados pelo mundo fora, como o PSI 20 ou o S&P500. Bogle foi o criador do veículo através do qual se tem acesso aos mercados de capitais e que serve de ponto de comparação para todos os investimentos financeiros.

Professor de Economia na London School of Economics

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