Opinião: João Almeida Moreira

Bolsonaro acima de todos

O novo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro Fotografia: Sergio Moraes / Reuters
O novo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro Fotografia: Sergio Moraes / Reuters

Jair Bolsonaro foi um estatista toda a vida, à imagem dos generais do regime militar que idolatra, até que, mais ou menos em 2017, o convenceram de que ser liberal, na economia, estaria mais de acordo com o DNA da nova direita brasileira e lhe renderia mais votos.

Foi vestindo essa capa de liberal, desta vez não apenas na economia, que o presidente do Brasil se saiu com esta no dia em que assinou decreto que flexibiliza o porte de arma: “estamos a dar ao brasileiro a liberdade de decidir”.

Citado pela revista Veja, o ministro estrela do bolsonarismo, o ex-juiz Sergio Moro, acrescentou uma frase no mesmo sentido: “Ninguém é obrigado a ter uma arma em casa mas é preciso respeitar a opinião de quem acha que precisa ter uma para se sentir mais seguro”.

Inatacáveis os argumentos de Bolsonaro e do seu mais célebre subordinado, à luz de quem defende com ardor a liberdade individual.

Mas então, caros presidente e ministro, como reagem a quem disser “ninguém é obrigado a ter haxixe [maconha, no Brasil] em casa mas é preciso respeitar a opinião de quem quiser fumar um charro [baseado, no Brasil]”?

Ou “estamos a dar ao brasileiro a liberdade de decidir se fuma ou não um baseado”?

O cigarro de cannabis é dado aqui apenas como exemplo – e porque um charro é potencialmente menos perigoso do que um revólver.

Mas podia usar-se “casamento gay”, “interrupção voluntária da gravidez”, “eutanásia” ou outras causas que o governo de Bolsonaro e fatia significativa do seu eleitorado querem controlar.

Os dois pesos e duas medidas presidenciais não se esgotam, porém, apenas nos temas de costumes.

Liberal quando lhe dá jeito, o presidente também é um paladino da honestidade seletiva.

Durante anos a fio, destacou-se pela demonização do uso do foro privilegiado – imunidade parlamentar – por titulares de cargos públicos mas considerou natural que o senador Flávio Bolsonaro, o seu filho mais velho a quem trata por 01, tenha pedido ao Supremo para ser julgado apenas na mais alta corte e não nas instâncias inferiores como os brasileiros mortais a propósito de um escândalo de corrupção em que está envolvido.

Ao que tudo indica, um amigo pessoal do clã Bolsonaro recolhia os salários dos assessores de Flávio, quase todos fantasma, para, falta apurar, entrega-los ao 01.

Liberal quando lhe dá jeito e paladino da honestidade seletiva, o presidente também é um cidadão comprometido até às vísceras com a recuperação económica desde que os amigos não sejam atingidos.

Na reforma da previdência social que pretende aprovar com sacrifícios para toda a gente, faz coro com o vice-presidente, sete ministros, porta-voz e mais dez membros de segundo escalão do governo, todos militares, no sentido de livrar as forças armadas desses mesmos sacrifícios.

Eis então um resumo de Bolsonaro: austeridade para os brasileiros, menos para os colegas do exército; tratamento judicial igual para todos, desde que não sejam os seus filhos; e liberdade individual apenas para os amiguinhos fãs de tiro ao alvo.

O Brasil acima de tudo, Bolsonaro acima de todos.

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