Bolsonaro afinal é competente

Jair Bolsonaro foi "um mau militar", na opinião, em entrevista de 1993, do general Ernesto Geisel, presidente da República de 1974 a 1979.

Como deputado, a sua profissão seguinte, os números falam por ele: em 28 anos redigiu dois projetos de lei.

O candidato presidencial Bolsonaro, entretanto, escudou-se em licenças médicas para fugir de debates em 2018.

Com este rastro de incompetência por onde passou e em que tudo a que se dedicou, chegou mesmo assim à presidência da República.

Já eleito, a política externa do seu governo isolou o Brasil do mundo, criando conflitos com a União Europeia por causa da destruição da Amazónia.

O alinhamento apaixonado a Donald Trump corrompeu, entretanto, a relação com os próprios Estados Unidos, agora sob administração Biden. E também a relação com China, seu maior parceiro comercial, o que gerou problemas financeiros ao setor agropecuário que a tal destruição da Amazónia visava ajudar. Por falar em economia, bastou uma ação do presidente - trocou um economista por um general no comando da Petrobras - para a empresa sofrer prejuízos milionários.

Bolsonaro vem estrangulando também a educação e a cultura, setores da sociedade com os quais não sente qualquer afinidade, e armando os brasileiros para satisfazer o lobby das armas.

E na saúde...

Bom, na saúde, provocou aglomerações, estimulou o fim do confinamento, atacou as máscaras faciais, fez campanha por remédios inúteis em plena pandemia, atrasou a compra de vacinas e execrou os planos de imunização contribuindo, decisivamente, para a morte de mais de 260 mil compatriotas e para a demora na retoma económica.

Não é fácil, portanto, encontrar alguém tão nefasto como este Calígula, este Nero, este Heliogábalo dos tempos modernos.

Mas será que ele não tem réstia de competência? Tem sim.

Para proteger o seu primogénito de um escândalo milionário de corrupção - o senador Flávio Bolsonaro é acusado de ter desviado ao longo de anos milhões dos salários dos seus assessores para comprar imóveis e pagar despesas pessoais em dinheiro vivo que depois lavava numa loja de chocolates - Bolsonaro revelou o seu lado espertalhão.

Assustado, sobretudo depois de o operacional daquele esquema corrupto ter sido descoberto escondidinho na casa do advogado presidencial, Bolsonaro dedicou a maior parte do seu mandato a minar o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), que havia denunciado o esquema.

E a intervir nos altos comandos da Polícia Federal, a razão para o ministro-estrela Sérgio Moro apresentar demissão.

E a intimidar investigadores, ao lançar suspeitas de tráfico de drogas contra o filho de um procurador.

E a encantar os juízes do caso com promessas de nomeação para o Supremo Tribunal Federal mal abra a próxima vaga.

E a comprar o apoio do Congresso Nacional com cargos, dinheiro e poder não fosse a situação complicar-se e transformar-se em processo de impeachment.

O rasgo de competência de Bolsonaro deu frutos por estes dias: o Supremo Tribunal de Justiça, numa iniciativa do juiz Otávio de Noronha, por quem o presidente disse ter sentido "amor à primeira vista", anulou as provas obtidas pelo COAF e fez voltar o escândalo de corrupção em torno de Flávio à estaca zero.

O governo de Bolsonaro até pode se ter tornado o Brasil um pária internacional, até pode desmatar com furor a Amazônia, até pode demolir a educação do país, até pode desvalorizar a Petrobras e até pode funcionar como melhor amigo do vírus mortal que para aí anda.

Mas salvou o bem-amado filho 01 do clã, afinal o seu principal desígnio.

À hora em que estas linhas eram escritas, entretanto, foi noticiada a compra, por Flávio Bolsonaro de uma mansão em Brasília no valor de seis milhões mesmo tendo o senador declarado às finanças um património de um milhão e de auferir 24 mil reais de salário.

Jornalista, São Paulo

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