Opinião

Bolsonaro e Abraão

Jair Bolsonaro, Presidente do Brasil.  EPA/MARCELO SAYAO
Jair Bolsonaro, Presidente do Brasil. EPA/MARCELO SAYAO

Na primeira aparição pública após a eleição para presidente da República, Jair Bolsonaro discursou numa mesa de sua casa, com a mulher, devota da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, de um lado, uma intérprete de libras, a linguagem brasileira de sinais, do outro, e três livros na frente. Uma biografia de Churchill, uma obra de Olavo de Carvalho, o delirante filósofo que lhe serve de guru, e a Bíblia.

Eleito sob o slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, o novo presidente do Brasil, católico de formação e de nascimento, fez-se batizar pelo Pastor Everaldo, importante liderança evangélica do país, nas águas do Rio Tigre, as mesmas onde João Batista batizou Jesus.

Antes de optar por um militar, Hamilton Mourão, para a vice-presidência, escolhera Magno Malta, outro pastor evangélico, ex-senador da nação e cantor gospel nas horas vagas, que recusou o cargo.

Uma das suas bases de apoio mais sólidas no Congresso nacional é a frente parlamentar supra-partidária conhecida como Bancada da Bíblia, por reunir deputados evangélicos, e alguns católicos, unidos por causas comuns, da proibição do aborto à cura gay. Será Damares Alves, uma pastora evangélica com essa agenda e não por acaso ex-assessora de Magno Malta, quem ocupará, aliás, o ministério dos Direitos Humanos.

Por todas as razões descritas acima, presume-se que Bolsonaro conheça a Bíblia e, nesse caso, a passagem Genésis 22, uma das mais pungentes das escrituras, quando Deus pediu a Abraão para sacrificar o seu único filho, Isaac, como prova da sua fé. Se a conhece, certamente lembrou-se dela quando, a propósito do “bolsogate”, o escândalo financeiro que envolve Flávio, o seu filho mais velho, e Fabrício Queiroz, o motorista dele, disse que quem tivesse culpas, fosse quem fosse, enfrentaria as consequências.

Estará então Bolsonaro disposto a sacrificar o seu filho Flávio? Em nome, no caso, não da fé, que Abraão precisou mais uma vez de provar ante o Senhor, mas da luta contra a corrupção, a causa que supostamente defende e que levou 57 milhões a votar em si?

Em Genésis 22, quando Abraão já alçava o cutelo para imolar o filho, Deus, convencido da fé do seu discípulo, impediu o holocausto, através da ação de um anjo. O patriarca do judaísmo, do cristianismo e do islamismo olhou então em volta e descobriu um carneiro, que sacrificou no lugar de Isaac. Pelo andamento da carruagem, Fabrício Queiroz, que já foi à televisão dizer que a família Bolsonaro não tem culpas no “bolsogate”, fará o papel de carneiro nesta história pagã.

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