Borat. O ridículo de uma versão surreal da América

Catorze anos depois de se ter tornado conhecido mundialmente pelo primeiro "documentário a gozar" do jornalista fictício Borat Sagdiyev, Sacha Baron Cohen está de volta.

O segundo "mockumentary" de Borat estreou na sexta-feira no Amazon Prime e, apesar de já sabermos que ia sair dali controvérsia - por causa de notícias que foram pingando aqui e ali nos últimos meses - assistir a este filme é uma autêntica sessão de ginástica para o queixo.

"Borat Subsequent Moviefilm", realizado por Jason Woliner, é uma bizarra exposição da América em 2020. Há momentos que geram aquela gargalhada pura de uma comédia bem rasgada. Há outros em que balbuciamos "o quê...?!", deixando o queixo descair sob o peso da perplexidade. E há outros em que renunciamos ao que está a ser apresentado visualmente, descrentes que tal coisa possa ter acontecido na realidade.

A história deste documentário a gozar é estapafúrdia, um jornalista que quer presentear um macaco ao vice-presidente dos Estados Unidos (Mike Pence) para pôr o ditador do Cazaquistão nas boas graças de Donald Trump. Mas até esta premissa é menos ridícula que algumas das coisas que americanos insuspeitos dizem e fazem no filme. Obviamente, não sabiam que estavam a ser gozados. Em muitos casos é até difícil perceber o que pensavam que estava a acontecer ali. Esse é o valor de Borat: mostrar, de forma muito constrangedora, o quão hipócrita e delirante é uma certa corrente de pensamento na América.

Um exemplo disso é a conversa que acontece num "centro de crise" para grávidas, aonde Borat leva a sua filha de 15 anos, Tutar (interpretada pela actriz búlgara Maria Bakalova). Tutar engoliu o bebé decorativo de um bolo e precisa de ajuda para o remover do estômago. O pastor (religioso) que os acolhe, acreditando tratar-se de uma gravidez, tenta convencê-los de que aquele bebé está vivo e que foi Deus que o concebeu. O pastor nem sequer pestaneja quando Borat diz que foi ele que colocou o bebé na sua filha de 15 anos, o que seria uma situação de violação e incesto. A única coisa que importa é a gestação do bebé, o resto é passado.

Há também a Marcha Pelos Nossos Direitos, um protesto que aconteceu em Junho contra as medidas de contenção da pandemia de covid-19. Borat fez-se passar por um artista e cantou músicas extraordinariamente ofensivas, com frases como "Obama era um traidor" e "Dr. Fauci, o que vamos fazer? Injectá-lo com a gripe de Wuhan." A audiência pareceu gostar e repetir os cânticos. Alguns dos presentes fizeram saudações nazis quando Borat cantou sobre Hitler. Os organizadores disseram que os manifestantes rejeitaram as canções racistas, mas as imagens reflectem o contrário, com uma recepção calorosa dessas ideias. É um momento aterrador de vergonha alheia.

Na audiência estavam dois apoiantes de Donald Trump com quem Borat viveu durante cinco dias, no que foi uma das proezas mais arriscadas de Sacha Baron Cohen durante este processo. Eram dois membros do movimento extremista QAnon, que a certa altura explicaram a Borat como Hillary Clinton mata crianças e bebe o seu sangue.

A parte mais incrível destas cenas foi quando Borat lhes mostrou um "livro de instruções" sobre mulheres do Cazaquistão, onde estava descrito, por exemplo, como um bebé menino já nasce a andar, enquanto as meninas não, e várias barbaridades anatómicas. Os dois tentaram explicar a Borat que aquilo era falso, não condizente com a realidade. Era, disseram-lhe, uma teoria da conspiração.

Borat conseguiu até penetrar um discurso de Mike Pence na conferência conservadora CPAC, mascarado de Donald Trump, enquanto o vice-presidente dizia que o presidente ia proteger a América do novo coronavírus. Foi a 27 de Fevereiro, quando todos estavam longe de pensar que mais de 225 mil pessoas morreriam da doença em 8 meses.

Na parte final do filme, vemos a controvérsia que envolveu Rudy Giuliani, o ex-mayor de Nova Iorque e advogado pessoal de Trump. Tutar conseguiu uma entrevista com ele para um site chamado "Patriots Report" e foi fazê-la numa suite de hotel. No final da entrevista, os dois foram para o quarto, Rudy disse para ela lhe dar o seu número de telefone e morada, e depois deitou-se na cama e começou a mexer nas calças. Foi aí que Borat interrompeu, vestido com lingerie e causando uma enorme cena, que terminou com os dois a fugirem dos seguranças de Giuliani.

O advogado de Trump disse que estava apenas a ajeitar a camisa dentro das calças e que isto foi uma cilada de retaliação pelas informações que ele conseguiu desencantar sobre o filho de Joe Biden, Hunter Biden. Mas a cena foi filmada meses antes de ele ter revelado as alegações.

Estas façanhas politiqueiras são o sumo do filme, mas há uma linha que entrelaça tudo o que vemos acontecer ao longo de hora e meia: mesmo quando confrontados com algo que é inaceitável, os americanos retratados deixam passar. É uma característica perigosa, enraizada no individualismo desta sociedade. Não se meter na vida dos outros, não "abanar o barco". Quando Borat pergunta ao dono de uma loja de hardware quanto gás propano é preciso para matar um cigano na sua carrinha, ele responde de forma técnica. Quando Borat pede a uma pasteleira que escreva "Os judeus não nos vão substituir" num bolo, ela nem hesita um segundo. Quando Borat quer pagar implantes mamários para a sua filha de 15 anos com uma mala cheia de dinheiro, a secretária começa a contar as notas. Quando vai comprar uma jaula para a filha dormir, o vendedor não se pronuncia. É uma impavidez gritante.

Talvez a mensagem seja de que deixar passar estas aberrações é uma receita para aceitar o autoritarismo. Talvez a ideia seja expor o ridículo de uma certa parte da América. Talvez seja fazer pouco dos que têm poder e abusam dele. Seja qual for a intenção vale a pena ver, mesmo que apenas pelo valor cómico: o resto de 2020 já traz amargura suficiente.

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