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Só as receitas do iPhone valeram mais que o volume de negócios total da Amazon no mesmo trimestre [Fotografia: EPA/OMER MESSINGER]
Só as receitas do iPhone valeram mais que o volume de negócios total da Amazon no mesmo trimestre [Fotografia: EPA/OMER MESSINGER]

A Apple foi obrigada a reconhecer que tem abrandado os iPhones mais antigos de propósito, uma admissão estonteante para terminar o ano em grande

Mais ou menos na mesma altura em que os novos iPhones vão para as lojas, em setembro, muitos utilizadores começam a notar que os seus smartphones estão mais lentos. Há pouco tempo vi um meme sobre isso, acusando a Apple de dar problemas aos modelos anteriores de forma intencional para obrigar os consumidores a comprarem os novos iPhones. É a chamada “obsolescência planeada”, que supostamente programa o fim de vida do dispositivo de forma a encorajar a sua substituição regular – o oposto do que acontecia nos primórdios dos telemóveis, quando um Nokia era capaz de durar cinco anos aos trancos e aos barrancos sem perder qualidades.

Não dá para começar a explicar a quantidade gigante de encrencas legais a que estaria exposta qualquer empresa que fizesse isso, muito menos uma marca tão visível como a Apple, pelo que ignorei a teoria conspirativa. Achei que a demora a carregar emails, os problemas com certas apps e os apagões espontâneos do telefone se deviam a outros factores.

Mas eis senão quando a própria Apple foi obrigada a reconhecer que sim, que tem abrandado os iPhones mais antigos de propósito, uma admissão estonteante para terminar o ano em grande. A explicação foi dada depois de uma série de testes comparativos executados pelo programador John Pole, da Geekbench, que mostraram um abrandamento significativo da velocidade de processamento nos iPhones 6s e 7. A Apple confirmou que introduziu nas últimas versões do iOS um mecanismo para abrandar os iPhones 6, 6s, SE e agora 7. A sua justificação é esta:

“O nosso objetivo é entregar a melhor experiência aos nossos clientes, o que inclui desempenho global e prolongamento da vida dos seus dispositivos”, explicou a Apple em declarações ao TechCrunch e The Verge. “As baterias de iões de lítio tornam-se progressivamente menos capazes de suprirem as exigências de utilização em condições de frio, quando têm pouca carga ou quando são mais antigas, o que pode levar a que o aparelho se desligue inesperadamente para proteger os seus componentes eletrónicos.” Estão explicados os apagões espontâneos. A marca disse ainda que pretende alargar esta “funcionalidade” de abrandamento a outros dispositivos.

Está certo, a explicação faz sentido. No entanto, é inconcebível que a Apple não tivesse avisado os consumidores de que ia fazer isto. Porquê o secretismo em torno de algo que podia ser muito melhor aceite se fosse comunicado com transparência? Não conheço ninguém que ache que pode comprar um smartphone e usá-lo durante os próximos dez anos sem perdas de desempenho ou capacidade da bateria. É uma ironia do progresso, esta. Antes olhávamos para estes investimentos como duradouros. O preço dos produtos de eletrónica era elevado, por isso calculávamos que iam ter de durar por muito tempo. Agora até consideramos pagar mais por um smartphone que por um computador, mas antecipamos que durem menos. Ou então, tornámo-nos menos pacientes e mais frívolos, sempre em busca do último grito.

Em qualquer dos casos, esta falta de transparência da Apple prejudica a sua reputação, para alguns utilizadores de forma irreparável. E este não é um caso que vai desaparecer com o fim de 2017: a empresa terá de enfrentar pelo menos cinco processos legais por não ter informado os utilizadores de que instalar os updates 10.2.1 e depois 11.1 e 11.2 do iOS levaria a um abrandamento da performance. Isto não é ciência de viagens intergalácticas. Numa empresa tão mediática quanto a Apple, tudo o que puder ser descoberto vai ser revelado mais cedo ou mais tarde. Antecipem-se.

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