Opinião: Ricardo Reis

Brexit, episódio 43

Matt Dunham/Reuters
Matt Dunham/Reuters

"O governo de Theresa May está há dois anos absorvido pelo Brexit, incapaz de concretizar qualquer outra política relevante no país."

Nesta semana, o processo do Brexit teve um desenvolvimento importante. Pela primeira vez, mais de dois anos depois do referendo, o governo britânico tem um plano concreto sobre o que fazer. Foi tão extraordinariamente difícil chegar a esse plano que o seu anúncio levou a demissões no governo, a exigências credíveis de eleições antecipadas e à possibilidade séria de Theresa May perder o lugar em breve. Não é nada claro que esse plano acordado com os negociadores da UE sobreviva nos próximos dias, quanto mais ser aplicado daqui a uns meses. Ele permite, no entanto, algumas conclusões seguras sobre o Brexit.

Primeiro, os argumentos dos defensores do Brexit no referendo caíram todos definitivamente por terra. Foi prometido que o Brexit não ia causar problemas à cadeia de produção das empresas, que iam rapidamente assinar-se acordos de comércio com outros países, que ia poupar-se uma fortuna em contribuições para a UE, que podia melhorar-se o sistema Nacional de Saúde de imediato, que iam ser cortadas regulações de rajada tornando o país mais competitivo, ou que a UE ia paralisar com o medo de que outros países saíssem. O plano atual mostra inequivocamente que todos estes argumentos são falsos. Os políticos fizeram campanha contra as previsões dos experts, que o povo devia ignorar, mas em todos estes pontos o tempo deu razão aos especialistas. Em contrapartida, os principais políticos do Brexit têm-se demitido quase todos e recusado qualquer responsabilidade.

Segundo, a Europa está unida enquanto o Reino Unido está separado. Os governos da Escócia e de Gales recusam este acordo e o partido da Irlanda do Norte, que permite ao governo de minoria governar, está furioso. Os partidos trabalhista e conservador estão divididos, com membros seniores de ambos a demitirem-se em choque com os seus líderes. O governo de Theresa May está há dois anos absorvido pelo Brexit, incapaz de concretizar qualquer outra política relevante no país.

Muitos historiadores do Reino Unido dizem que esta é a maior crise política em décadas. Em contrapartida, o Brexit não é sequer um dos principais tópicos de discussão na UE, mais preocupada com Itália, com Trump, ou com os refugiados.

Terceiro, os últimos meses tornaram claro quão poderoso um pequeno país (como Portugal) pode ser dentro da UE. A Irlanda passou grande parte da sua história sobre domínio inglês. É um país independente há menos de um século. No que diz respeito à Irlanda do Norte, sempre teve de se sujeitar ao que decide a Grã-Bretanha. Mas nestas negociações foram os irlandeses, apoiados completamente pelos outros países da UE, a impor condições e a exigir e a conseguir o que queriam.

As boas notícias para o Reino Unido nesta semana foi que se pode evitar a saída descontrolada da UE, o que seria uma catástrofe, e que há um futuro exequível e defensável. As más notícias, previsíveis, é que neste momento não é visível que o país vá ganhar seja o que for de concreto com o Brexit.

Professor de Economia na London School of Economics

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