Opinião: João Almeida Moreira

Burros sim, ingénuos jamais

REUTERS/Adriano Machado
REUTERS/Adriano Machado

No Brasil, há quem acredite que uma citação de jornal de Fernando Haddad a dizer que, uma vez eleito, vai recolher todas as criancinhas até aos cinco anos e deixar ao estado a incumbência de decidir qual o seu sexo, é verdadeira e não uma montagem.

No entanto, esses mesmos crentes não se deixam enganar, não senhor, pelo sistema das urnas eletrónicas. Apesar do Supremo Tribunal investir em permanência na sua segurança, de o equipamento ser auditado três vezes, incluindo no dia votação, com a presença de representantes de todos os partidos candidatos, de especialistas brasileiros e estrangeiros atestarem a sua fiabilidade e de técnicos dos Estados Unidos invejarem a sua rapidez por comparação com os obsoletos papelinhos usados nas eleições americanas, um certo tipo de brasileiro desconfia.

A começar por Jair Bolsonaro, que horas depois de ter sido o mais votado na primeira volta das eleições, lançou suspeitas de fraude nas urnas eletrónicas, ganhando imediatamente a concordância do tipo de brasileiro que vota nele.

A propósito: será, então, que nas sete vezes em que o deputado foi eleito para o Congresso Nacional houve fraude nas urnas eletrónicas a favor dele?

No Brasil, há quem acredite que uma fotografia do candidato do PT a segurar um biberon (mamadeira no Brasil) com bico em forma de pénis, supostamente para combater a homofobia, é verdadeira e não uma montagem.

No entanto, boa parte desses crentes, não se deixa enganar, não senhor, pelo instituto de sondagens e pesquisas Ibope. Apesar da empresa ter sido fundada em 1942, manter 3500 técnicos especializados, ter uma receita anual de 220 milhões de dólares e ser considerada uma das 25 principais empresas mundiais do setor pelo ranking norte-americano Honomichl e ter até entrada em prestigiados dicionários brasileiros como sinónimo de audiência, um certo tipo de brasileiro desconfia.

A começar por Jair Bolsonaro, que no princípio do mês passado lançou suspeitas sobre uma sondagem que aumentava a percentagem de votos na sua candidatura mas também a de eleitores que o rejeitavam, ganhando imediatamente a concordância do tipo de brasileiro que vota nele.

A propósito: será então que as pesquisas que o colocam como vencedor das eleições batendo Haddad são então uma fraude?

O que leva um indíviduo a ter medo de passar por ingénuo mas a não se importar de passar por burro? E que o leva a acreditar numa corrente obtusa de whatsapp mas a desconfiar de organismos com credibilidade testada, auditada e comprovada?

Há três caminhos de resposta. Primeira: os crentes nas fake news distinguem-nas perfeitamente mas fazem-se de tolos apenas para as disseminar. Segunda: os crentes nas fake news estão de tal forma alienados que acreditam no que é dito pelo líder da manada sem gota de espírito crítico. Terceira: como constatou empiricamente o jornalista do Financial Times Simon Kuper nas suas inúmeras viagens, quão menos transparente é o país mais o seu povo acredita em teorias da conspiração – segundo ele, milhões de iraquianos garantem que Saddam Hussein está vivo, por exemplo.

Não só está vivo como vota Haddad, deve ler-se um dia destes no whatsapp.

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