Caracol de corridas

Há um par de meses, o Governo de Liz Truss ameaçou cometer o maior sacrilégio dos nossos tempos - reduzir os impostos, com vista a manter os rendimentos na posse das famílias, dos trabalhadores e das empresas, ao invés de os transferir para o Estado. O que é o mesmo que dizer, perpetuar a dívida. Esta é a escolha que os políticos têm entre mãos: permitir que os comuns mortais retenham a riqueza que produzem ou extorqui-los com impostos, a troco de esmolas públicas, para satisfazer os delírios monetaristas de um mundo que, desde que saiu do padrão-ouro, mais parece uma impressora xerox.

Truss e seu chanceler do Tesouro, Kwasi Kwarteng, optaram pelo povo, com palavras promissoras: "Para elevar o nível de vida de todos, temos de apoiar sem contemplações o crescimento da nossa economia. A redução do imposto é crucial para isso". A tal xerox, porém, não gostou. E o bullying não se fez esperar. As obrigações do tesouro britânico aumentaram de 3,5% para 4,3%, dando aso a uma campanha negra nos media nacionais e internacionais, à qual o ingénuo governo não resistiu. Foi o mais curto da história do Reino Unido, deitado abaixo em apenas 45 dias.

Vivemos hoje numa autêntica panela de pressão, sendo que o prato a ser confecionado somos nós. Só ainda não sabemos a receita: Povo estufado à moda da inflação, cozido em lume brando pela recessão, ou frito por ambas? Desde 1971 que os bancos centrais têm inundado o mercado com excesso de moeda, enquanto os políticos penhoram o futuro, endividando os respetivos países - o que tem levado ao aumento progressivo da carga fiscal. Sucede, entretanto, que este processo atingiu o seu extremo durante a pandemia. Em 2020, o Federal Reserve imprimiu 3 triliões de dólares. Quanto ao Reino Unido, o plano de apoio às empresas chegou aos 70 mil milhões de libras.

A inflação era inevitável. Para a combater, aumentou-se as taxas de juro, o que resultará (ou melhor, já está a resultar) numa recessão. Os mercados estão em queda progressiva. Enquanto isso, se a moeda no seu todo perdeu valor, em termos relativos, o dólar fortaleceu-se em comparação com as demais (euro, libra). Afinal de contas, a esmagadora maioria das transações continuam a ser em dólares e esta é também a moeda em que são pagas as dívidas. Assim, tendo em conta que o bloco alternativo à presente ordem mundial levará tempo a desvincular-se da moeda americana (se é que algum dia se desvinculará), esta permanecerá forte, pelo menos a curto prazo.

Todavia, ninguém parece querer aprender com o que se está a passar. Os diagnósticos que por aí se fazem continuam a isentar o delírio monetarista. Ao invés, culpam os salários altos e têm a desumanidade de achar que a própria recessão, e consequente desemprego, é um meio fantástico para controlar a inflação. Além de desumana, esta visão é imbecil. Em primeiro lugar, porque tende a confundir a inflação com a mera subida de preços de bens de consumo.

Em segundo, porque o fator que mais contribui para a baixa de preços não é a pobreza, mas a concorrência, fruto de uma economia saudável e próspera. O que precisamos, então, é de dar condições para que haja crescimento, em vez de alimentar o processo recessivo na esperança perversa de que este resolva o inflacionário.

O governo de Lizz e Kwarteng chocava de frente com toda esta insanidade, para não dizer roubo. Daí que não tenha chegado sequer ao Natal. Quanto ao novo PM, Rishi Sunak, nada tenho contra ele. Já o elogiei pela sua capacidade de merceeiro, no bom sentido da palavra. Estou convencido que zelará pelo bom senso nas contas públicas. Além disso, penso que manterá a estratégia britânica em se posicionar acima do globalismo. O Reino Unido não deixará de ser a ilha das exceções, que tudo globaliza sem que ela mesma se deixe globalizar.
No entanto, por mais que me esforce, só posso torcer o nariz à política fiscal que Sunak já assumiu. Esqueçam a revisão do Stamp Tax (imposto de selo sobre novas aquisições imobiliárias), que continuará a afetar a mobilidade laboral. Esqueçam também a redução fiscal sobre as empresas e rendimentos pessoais. Pois, apesar do novo PM ter o mérito de saber muito bem como acertar as contas, não irá acertá-las pelo lado do crescimento, mas pelo regresso à dinâmica de sempre. Ou seja, pela transferência da riqueza dos bolsos dos trabalhadores, famílias e empresas para o Estado. O que significa, uma vez mais, perpetuar a dívida.

Deste modo, tudo se manterá na mesma, como a lesma. Claro está que a Inglaterra continuará a ter um regime fiscal mais competitivo que grande parte dos países europeus, tanto em relação às empresas como aos rendimentos pessoais. Quanto à dívida, também continuará a haver casos mais alarmantes, tais como Itália e Portugal. Adivinha-se, portanto, um campeonato de limacídeos em que a lesma europeia não alcançará sequer o passo do caracol inglês. Ainda assim, porém, um caracol de corridas não deixará de ser um caracol.


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