Cartão do absurdo

A pausa da Liga bwin para as seleções (e os clubes a pagarem) é um bom momento para se refletir sobre o famigerado cartão de adepto.

Decorridas quatro jornadas, constata-se o óbvio: a fraquíssima adesão e a relocalização, nos estádios, dos adeptos considerados potenciais criminosos pelos mentores da lei.

Numa altura em que subsistem as restrições à lotação e os clubes continuam ávidos de receitas, é penoso olhar para os setores reservados a portadores do cartão de adepto, desertos, porém vigiados.

Não sei avaliar da constitucionalidade do cartão de adepto. Parece-me, no entanto, um caminho perigoso requerer uma identificação adicional a quem opta por uma postura diferente, leia-se, neste caso, ver um jogo de pé, cantar, usar artefactos afetos a clubes ou a claques.
Muito menos entendo como é possível que, com uma lei, se infira de certos comportamentos que possamos estar perante um prevaricador ou se lance um anátema sobre alguns cidadãos, presumindo-se culpabilidade em atos por acontecer. O que seria se se exigisse um cartão de político a cidadãos na política ativa, por já ter havido criminosos entre os seus pares...

É evidente que há prevaricadores em estádios de futebol. No entanto, é caricato que se reconheça implicitamente na lei a incapacidade das forças de segurança e da justiça para lidar com o problema, apesar do enquadramento legal e dos recorrentes aparatos policiais. O cartão de adepto não é a solução, só mesmo em João Paulo Rebelo no país das maravilhas funcionaria.
Em suma, é isto: solicita-se a meninos maus que tenham um cartão para acederem a uma zona específica dos estádios. Por serem pouco imaginativos, não lhes ocorre ir para outros setores. E, portanto, quando forem traquinas, serão mais facilmente identificados e punidos. Não deixa de ser intrigante que alguém vislumbre eficácia neste método.

E já que estamos no domínio do absurdo, espero que João Paulo Rebelo não tenha reparado na inexistência de problemas nas bancadas dos estádios sem público durante a pandemia.

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