Causa justa

Segundo o Guardian, morreram milhares de migrantes no Qatar desde o anúncio, em 2010, da realização do próximo Mundial. A necessidade de infraestruturas para albergar o certame exigiu um enorme fluxo de trabalhadores, pelos vistos sujeitos a condições de trabalho perigosas e atentatórias da dignidade humana.

O sistema Kafala, que obriga cada migrante a ter um patrocinador no seu país de origem, abriu portas, segundo organizações de defesa dos Direitos Humanos, a práticas próximas da escravatura. Perante as denúncias, as autoridades do Qatar prometeram terminar com esse sistema, mas passado um ano renovaram-se as acusações.

É chocante que a FIFA e federações, ou até mesmo jogadores e treinadores, pouco ou nada tenham a dizer sobre o assunto, salvo honrosas exceções.

O retrato feito pelo Guardian expôs uma situação insustentável e motivou o ressurgimento de alguma (mas pouca) indignação. Ganhou notoriedade o protesto de sócios do Bayern Munique, em assembleia-geral, na qual foi votada favoravelmente uma proposta de término unilateral da parceria do clube com a Qatar Airlines.

O Bayern é, de facto, exemplar a vários níveis. É um clube modelo a nível desportivo, associativo e empresarial, com um tipo de governação que muito aprecio. Acresce ter resistido ao poder nazi, nunca deixando de respeitar o seu então presidente, um judeu exilado na Suíça, e sofrendo consequências por isso.

O Bayern é dos sócios e é gerido de uma forma ultraprofissional. 75% do capital pertence ao clube e o remanescente é dividido em partes iguais por três parceiros estratégicos. É aquele que, porventura, lida melhor com o maior desafio destas sociedades: é um clube que tem de ser gerido como uma empresa, ao mesmo tempo que as práticas empresariais têm de ter sempre presente o caráter clubístico. Por vezes, as decisões de gestão não satisfazem plenamente as duas facetas, obrigando a um equilíbrio permanente entre elas. Ouvir os sócios, mesmo em conflito com a racionalidade da gestão, é fundamental.

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