Opinião

Cem anos de desigualdade

Hank Strong/United State of Women
Hank Strong/United State of Women

“Adoro homens, fui casada com dois. Mas se esperarmos por eles, lamento dizer que vamos continuar à espera.”

Não é fácil descobrir quem ganha o quê dentro das empresas. Alguém vai para a pausa do café perguntar ao colega quanto recebe no final do mês? Por quanto negociou o contrato? Se a tabela é a mesma para todos? Existe uma espécie de tabu nesta conversa que prejudica de forma especial as mulheres. Porque sabemos que as estatísticas de desigualdade salarial são terríveis, mas não temos ideia se fazemos parte delas.

Antes de levantarem o balão de comentário que diz que os homens ganham melhor porque têm mais experiência e mais disponibilidade e três unicórnios que lhes dão sangue mensalmente, fixem-se nisto: a este ritmo, levará cerca de cem anos a eliminar as desigualdades entre os sexos. Não sei se interessa perceber o que está por detrás desta realidade – tão comum e internacional que é impossível achar que é uma coincidência. O que é preciso é começar a resolvê-la.

Há organizações que estão focadas em arranjar mais financiamento virado para mulheres, de forma a que as empreendedoras possam criar as suas empresas. Outras estão empenhadas em acelerar internamente o caminho para a paridade. A abordagem da Ellevest, fundada pela veterana da indústria financeira Sallie Krawcheck, é distinta: ajudam as mulheres a investirem dinheiro através de um algoritmo desenhado especificamente para os salários e ciclos de vida no feminino. É a primeira do género e tem uma proposta muito interessante, mas o que me chamou a atenção quando Krawcheck falou no evento United State of Women este fim-de-semana, em Los Angeles, foi o que ela disse sobre a forma como as mulheres são infantilizadas no que toca a dinheiro.

“A conversa do dinheiro foi transformada em algo estranho e quase vergonhoso, de tal forma que nós mulheres falamos mais de sexo que de dinheiro”, afirmou, gerando grande reação na audiência. “Vai-se para a cama ao terceiro encontro mas não se fala de dinheiro.” É certo que estamos a olhar para uma cultura muito americana, em que existe pressão para que as mulheres deixem de trabalhar quando têm filhos – mesmo quando se trata de carreiras brilhantes e com algum poder. Isto cria uma tensão esquisita no cenário dos relacionamentos: é esperado que a mulher esteja disponível para depender financeiramente do parceiro, mas questionar quanto ele ganha rende-lhe o epíteto de caça-fortunas.

Krawcheck falou do desequilíbrio que existe em Wall Street, onde 90% dos corretores e 86% dos consultores financeiros são homens. Ela, que passou lá 25 anos, era uma das excepções. E ainda que tenha sempre ficado no top de performance financeiras dos sítios onde trabalhou, foi despedida duas vezes. “Adoro homens, fui casada com dois. Mas se esperarmos por eles, lamento dizer que vamos continuar à espera.”

A sua empresa, Ellevest, não só ajuda mulheres a investir como investe em empresas lideradas por mulheres. Por uma questão de números: “os investimentos em mulheres costumam ter retornos mais rapidamente, as empresas lideradas por mulheres têm melhor performance”, resumiu Krawcheck. Estudos recentes, como o do Nordea Bank no ano passado, confirmam isto. As empresas lideradas por mulheres têm, consistentemente, um desempenho superior ao do resto do mercado.

“A desigualdade salarial não está a melhorar, as coisas estagnaram. Temos de nos juntar”, desafiou. Há sempre um quê de sensacionalismo nestes sound bites que se ouvem em conferências, feitos à medida para caberem num título e numa citação. No entanto, tudo isto faz sentido. Seja com a Ellevest, que anda a promover a hashtag #disruptmoney, ou com qualquer outra iniciativa que faça mexer os ponteiros. Se é verdade que não é preciso pôr mulheres na liderança para mudar as coisas – como comprovam os avanços de Los Angeles sob a égide do mayor Eric Garcetti, que tem um governo paritário – também é um facto que ficar à espera não vai funcionar. E nenhuma de nós vai cá estar para ver daqui a cem anos.

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