Opinião: João Almeida Moreira

Cenas de desperdício

Fotografia: Direitos reservados
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Em Outubro de 2017, o presidente do banco estatal Caixa Económica Federal reconheceu a necessidade de uma ajuda do governo para resolver a crise da instituição, incapaz de se adequar às regras internacionais do setor.

Observadores externos disseram, aliás, ver como única salvação do banco fundado em 1861 pelo imperador Dom Pedro II a sua privatização.

Cerca de 100 agências serão fechadas.

Paralelamente, um fundo de investimento em infraestrutura da Caixa fora apanhado no furacão da Operação Lava-Jato: Eduardo Cunha, o artífice do impeachment de Dilma Rousseff e ex-íntimo de Michel Temer, comandava um esquema de desvio de recursos do fundo para pagar favores políticos.

E meses depois, já em Janeiro deste ano, foram afastados quatro dos 12 vice-presidentes da Caixa por determinação do Ministério Público, acusados de corrupção.

Apesar da grave crise financeira e das denúncias de corrupção que a invadiram, a direção da Caixa Económica Federal encontrou mesmo assim motivação para selecionar hoje, dia 16, seis mil dos seus funcionários e reuni-los num evento de luxo em Brasília inspirado no Mundial da Rússia chamado “Seleção Caixa: Em Campo Pelo Brasil”.

Cafu, capitão da última seleção brasileira campeã do mundo, Galvão Bueno, o narrador oficial de todos os jogos do Brasil, e Martha Gabriel, perita internacional em tecnologia, foram convidados para dar palestras aos funcionários.

Para apresentar a cerimónia, um astro das novelas da Globo, Luigi Baricelli, e uma estrela do departamento de desporto da Bandeirantes, Renata Fan.

No final, os empregados da Caixa vão poder saltar e dançar ao som do popular cantor Saulo.

Michel Temer foi convidado para o evento mas ainda não tinha confirmado a presença – ele, como Cunha e outros chefes do partido MDB, é um dos acusados pela Procuradoria-Geral da República de integrar uma organização criminosa que desviava recursos da Caixa.

Segundo a imprensa, como os palestrantes e as outras estrelas cobram no mínimo 10 mil euros por aparição em média e as viagens e hospedagem dos seis mil funcionáros serão pagas pelo banco (e pelo contribuinte), a festa poderá custar perto de 25 milhões de reais – mais ou menos seis milhões de euros.

Falta só dizer o local da celebração: o Estádio Mané Garrincha, construído de propósito para o Mundial anterior ao da Rússia – o do Brasil. Contratada por 700 milhões de reais [cerca de 170 milhões de euros], a obra brasileinse acabou por custar 1,6 mil milhões de reais [cerca de 400 milhões de euros], o que a tornou a mais cara da Copa.

O evento da Caixa já faz parte da nova política do governo do Distrito Federal para o recinto: por não receber jogos suficientes, já que os clubes de Brasília estão ausentes das principais divisões do futebol brasileiro, passou oficialmente a “casa de espetáculos”, com um aluguer 85% mais baixo do que o previsto, para diminuir a ociosidade.

Pelo meio, serviu de sede de escritórios de empresas e até de estacionamento para autocarros.

O que a Caixa, com Temer ou sem Temer, celebrará hoje no Mané Garrincha será mais uma cena do desperdício criminoso do estado brasileiro.

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