economia portuguesa

Cérebros em fuga

Desapareceram 100 cérebros da Universidade do Texas, conta um livro publicado esta semana pelo escritor Alex Hannaford e o fotógrafo Adam Voorhes. Ninguém sabe onde estão, lê-se em "Malformed: Forgotten Brains of the Texas State Mental Hospital".

É a história bizarra de uma coleção, digamos, diferente, que desapareceu do mapa. Não eram cérebros bons (pertenciam a pessoas mortas, estavam conservados em formol), mas eram bons cérebros, na medida em que eram perfeitamente prestáveis na investigação científica da universidade. Um grande investimento, lembram os autores do livro.

Vem isto a propósito de outra fuga do tipo cerebral/intelectual, mais próxima, que se vê no mapa, mas sobre a qual ninguém consegue anotar nem números rigorosos, nem prejuízos concretos. A fuga dos cérebros portugueses para o estrangeiro.

Com o devido respeito, se da universidade texana desapareceram 100 cérebros bem conservados, de Portugal desapareceram, em apenas uma década (de 2001 a 2011), mais de 200 mil exemplares impecáveis, a funcionar na perfeição. Promissores.

Diz que emigraram. Dos que saíram ao longo desses dez anos, um terço tinha qualificações superiores. Em 2001, eram 77,790 emigrantes com ensino superior. O censo de 2011 diz 145,833 licenciados. Um aumento de 87,5%.

E estamos a falar apenas de pessoas que foram viver para países da OCDE. As contas foram divulgadas este ano pelo Observatório da Emigração. Infelizmente, “não há dados sobre nacionalidade para alguns países de destino relevantes como o Brasil e Angola”. São feitas algumas contagens, mas os números que chegam “não são fiáveis”.

Assim, há um problema grave, crescente, que é o de ninguém estar em condições de anotar o prejuízo atual e futuro de não poder contar com os mais qualificados, sejam licenciados ou não.

Os censos de 2011 permitiram perceber que “viverão hoje no mundo mais de dois milhões de emigrantes portugueses”. O problema é, no entanto, o fluxo torrencial de saídas em anos mais recentes, os da crise económica e social agudizada pelo programa de ajustamento.

Crítico é saber quanto custa ao país abrir mão dessas pessoas, nas quais o país já investiu e as quais o país não irá aproveitar. Ou não pode. Ou não quer?

Este debate, que anda de mãos dadas com o do desemprego, o da falta de oportunidades, o da rarefação de novos investimentos e o da paralisia do Estado e dos bancos, ganhou particular pertinência a partir deste ano.

A economia será (seria) oficialmente maior caso esses ativos se mantivessem no território. As novas regras estatísticas europeias assim o decretam. A partir de agora, com o SEC 2010, as atividades de investigação e desenvolvimento são reconhecidas como formação de capital de propriedade intelectual. Engrossam o investimento.

“A investigação e desenvolvimento (I&D) é um trabalho criativo, realizado de uma forma sistemática para aumentar a soma dos conhecimentos e utilizar estes conhecimentos para descobrir ou desenvolver novos produtos, incluindo versões ou qualidades melhoradas de produtos existentes, ou descobrir ou desenvolver processos de produção novos ou mais eficientes.”

“Os produtos de propriedade intelectual são o resultado da investigação e desenvolvimento, da pesquisa e inovação, que conduzem ao conhecimento, e cuja utilização é limitada por lei ou por outros meios de proteção.”

Até 2012, também o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) disponibilizava um indicador bom, porque único e de base mensal, para ajudar a medir a fuga de qualificados através da malha porosa do desemprego e da falta de trabalhos compatíveis. Mas até esse foi descontinuado.

Numa entrevista ao Jornal de Negócios em fevereiro, Jorge Gaspar, o presidente do IEFP, estava aparentemente tranquilo com tudo isto. Disse que os dados sobre desempregados que anularam a inscrição por motivo de emigração não eram suficientemente bons, garantiu que o pior da emigração já passou.

É o que vamos ver nos próximos anos. Tendo em conta o esvaziamento em curso do potencial da economia portuguesa e a qualidade dos dados e da monitorização estatística, só vamos saber a verdade oficial com um atraso de três anos ou mais.

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