Opinião: Carlos Brito

Chefes e caudilhos

Fotografia: Ina Fassbender/AFP
Fotografia: Ina Fassbender/AFP

Tudo aponta para que, com o crescente trabalho à distância, seja cada vez mais necessário haver líderes e não simples chefes

O tempo comprimiu-se drasticamente em resultado da pandemia. Em poucas semanas tiveram lugar alterações que normalmente demorariam anos a ocorrer. Uma das áreas onde esse fenómeno mais se sentiu – e, principalmente, irá fazer-se sentir – é a do trabalho. Não me refiro ao encerramento de empresas, nem aos processos de lay-off em curso e muito menos ao teletrabalho temporário em que muitos se encontram.

Refiro-me às alterações estruturais que se irão registar no mercado do trabalho, tanto do lado da oferta como da procura, assim como às que irão ocorrer no domínio da organização do trabalho.

Se é verdade que muitas empresas já encerraram definitivamente as suas portas, muitas outras irão abrir falência nos próximos tempos. Há setores que serão fortemente penalizados, como o turismo, a aviação, a construção e o imobiliário. E, independentemente da área de negócios, existem empresas que, não possuindo à partida a necessária almofada financeira, não irão aguentar esta fase de confinamento generalizado.

Isto significa que se vai assistir a uma forte onda de despedimentos, sempre com a incerteza sobre quando ocorrerá a reintegração dos desempregados no mercado trabalho – ou mesmo se as suas competências ainda continuarão a ser necessárias nesse novo mercado. Isto porque as cadeias de valor e os modelos de negócio se vão reconfigurar, adaptando-se à nova ordem mundial da economia.

Esta nova globalização será bastante diferente da velha globalização, aquela que conhecíamos antes da crise sanitária. A interação económica, social e política continuará a ser global, mas a circulação de pessoas e de bens será muito menor. As primeiras por causa do receio de contágio e das próprias restrições impostas pelos estados; os segundos por causa da reconfiguração das cadeias de valor, menos dispersas geograficamente e menos dependentes de fornecimentos provenientes da China.

Para além destas alterações, assistir-se-á a modificações importantes na organização do trabalho. O designado teletrabalho – embora a expressão inglesa home office me pareça mais feliz – veio para ficar. O que significa que o estilo de liderança terá de se adaptar aos novos contextos. A gestão de equipas passará a estar cada vez mais centrada nos resultados e não nas tarefas. Gestão por objetivos numa base de projetos terá de ser cada vez mais comum, com todo o impacto a nível contratual, remuneratório e organizacional daí decorrente.

Em suma, tudo aponta para que, com o crescente trabalho à distância, seja cada vez mais necessário haver líderes e não simples chefes. O problema é saber como se articulará esta tendência com uma outra, essa de âmbito político, em que parece haver, a nível mundial, cada vez mais caudilhos e menos estadistas. Mas isso são já outras histórias…

 

Carlos Brito, vice-reitor da Universidade Portucalense

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