Opinião: Ricardo Reis

Chegou ao fim o Brexit?

REUTERS/Toby Melville
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A esperança de May é que, com uma extensão de dois meses, o Parlamento aceite o seu acordo.

O Parlamento britânico finalmente tomou decisões nesta semana. Decidiu rejeitar o acordo que Theresa May tinha alcançado com a União Europeia, rejeitar sair sem acordo e pedir uma extensão do prazo para sair da UE. Será este o momento de resolução da incerteza que tem paralisado o investimento? Pode por isso a economia do Reino Unido dar um salto no próximo ano?

A esperança de May é que, com uma extensão de dois meses, o Parlamento aceite o seu acordo. O Reino Unido entraria então num período de transição em que iria negociar um novo acordo comercial com a UE. Pelo que vimos no Parlamento nos últimos anos, há pelo menos quatro opiniões distintas sobre o que deve ser esse acordo e ninguém está disposto a ceder. Os lados mais técnicos dos acordos comerciais demoram muito tempo a alinhar; juntando-se indefinição política, esperam-se anos durante os quais as firmas britânicas não sabem que acesso terão ao mercado europeu. Ao mesmo tempo, até esse acordo estar concluído, o backstop irlandês está sem efeito, ou seja, os ingleses não podem controlar a maioria dos regulamentos comerciais sem desencadear a separação da Irlanda do Norte do resto do país. Isto ameaça o colapso do partido Tory e a ascensão de uma nova forma de extrema-direita no RU.

Num segundo cenário, ou porque a UE exige condições para dar uma extensão que o governo acha inaceitáveis, ou porque durante o período de extensão o parlamento dá uma volta, o RU sai sem acordo. Nesse caso, no curto prazo pode haver muita volatilidade durante uns meses, para acabar novamente na estaca zero da negociação de acordos comerciais. Na ilha irlandesa, o choque económico será muito grande, e o choque civil por se erguer uma nova fronteira entre Norte e Sul ainda maior.

Economicamente, parece pior. Politicamente, pior ainda. A possibilidade de violência e eventualmente um referendo que une as duas Irlandas é bem real, o que por sua vez seria acompanhado pela independência da Escócia. Irá a Inglaterra assistir impávida ao desaparecimento da sua nação?

Olhando para os principais líderes hard Brexiteers e os seus discursos nacionalistas, é inconcebível vê-los a determinada altura usar a força para manter a união? A incerteza parece maior.

Num terceiro cenário, o adiamento é prolongado por dois ou mais anos, e com a erosão temporal da legitimidade democrática do referendo, justifica-se fazer um novo referendo. Mais incerteza económica durante muito tempo porque o resultado desse referendo é difícil de prever. Politicamente, os dois maiores partidos correm sério risco de fragmentação, com a emergência de um novo partido centrista unido pelo Remain, e o Labor a virar ainda mais para a esquerda, e o Tory mais para a direita. Será um novo regime político para o RU, novamente altamente incerto.

Por isso, seja qual for o cenário, espera-se mais incerteza de fonte política nos próximos anos para a economia britânica e menos incentivos ao investimento. Um triste estado de coma para um dos principais países da Europa.

Professor de Economia na London School of Economics

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