Ricardo Reis

Cinco desafios para a economia

Fotografia: Nuno Brites
Fotografia: Nuno Brites

Nestes 5 anos do Dinheiro Vivo, pediram-me para escrever sobre os 5 desafios da economia portuguesa.

Cinco é muito, pois basta um: pôr a economia a crescer. Comecei a escrever para a imprensa há uma década e, desde então, relembro quase mensalmente um facto: desde o ano 2000 que a economia não cresce. Era grave em 2006, é desastroso em 2016. É este o grande desafio para todos os portugueses, trabalhando, inventando, esforçando-se, dia após dia, sem esperar por um Dom Sebastião milagroso para retomar o crescimento económico.

Não quero com isto dizer que a política não interessa. O problema em sublinhar a prioridade no crescimento económico é que produz muitos loucos que se sentem justificados em propor políticas públicas que talvez possam estimular a economia, mas têm de certeza muitos efeitos secundários nocivos. Na medicina, o objectivo é manter o doente saudável, mas uma pedra basilar da bioética é primum non nocere, primeiro não fazer mal. Por exemplo, hoje em Portugal, violar os compromissos do défice público para encetar uma enorme expansão fiscal talvez trouxesse algum crescimento, mas de certeza faria muito mal. Este é um segundo desafio para a economia portuguesa, não ir no canto da sereia de demagogos populistas e adoptar políticas desastrosas. Um excelente economista que trabalhou em vários governos americanos uma vez disse-me que a principal função dos especialistas, na economia como noutros campos, não era propor novas políticas fantásticas, mas era antes impedir que políticas desastrosas fossem adoptadas.

Este segundo desafio não implica que nada deva mudar. Reformar o nosso país é essencial. Com o programa da troika e o último governo PSD-CDS, o país começou a mudar, implementando muitas reformas que evitaram que a crise fosse muito pior. O novo governo PS, no último ano, teve de honrar os seus compromissos eleitorais, revertendo algumas dessas reformas (mas não assim tantas). O grande desafio em 2017 para o governo é começar agora a implementar as suas reformas. Podemos concordar ou discordar com algumas das reformas nos últimos 5 anos, assim como com as reformas no futuro próximo. Mas não podemos dizer que basta voltar à situação em 2007. A nossa economia está em crise há tanto tempo que reformar é crucial.

O quarto desafio para a estrutura da nossa economia é continuar a virar-se para o estrangeiro. Não porque as exportações sejam boas por si, mas porque com uma economia pequena como a nossa, vêm de fora as pressões competitivas que encorajam a produtividade. Quando as empresas têm incentivos para virar-se para dentro, servindo apenas o mercado interno, rapidamente percebem que fazê-lo depende mais de satisfazer os governantes locais do que de conquistar os consumidores. Portugal tem há décadas um Estado centralizado, grande, e interventivo, que inevitavelmente produz rendas e as distribui pelas empresas amigas do poder político. É um regime confortável mas que leva à estagnação. Só com pressão externa conseguimos aumentar a produtividade.

O último dos cinco desafios é estabilizar o sistema financeiro. Depois de tantos percalços em 2016, há alguma esperança que 2017 traga a recapitalização da CGD, a estabilização accionista do BPI, e a venda do Novo Banco. É uma oportunidade, se bem que ténue, para trazer solidez e progresso para o nosso sector bancário. Pela sua importância, este sector terá um papel central no sucesso em alcançar os outros quatro desafios.

Para concluir, fica um desafio que, por um lado não se encaixa nos outros, porque não é estritamente económico, mas por outro lado os afecta a todos. Os choques eleitorais de 2016 vão começar a fazer sentir os seus efeitos por todo o mundo em 2017. A política entregue a populistas pode ser uma fonte de desafios sem fim.

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