Opinião: Carlos Brito

Classe média

Fotografia: Cristiana Milhão/Global Imagens
Fotografia: Cristiana Milhão/Global Imagens

A classe média, mais do que ajudas, precisa de estabilidade, segurança, oportunidades e, "last but not least", de não ser asfixiada pela carga fiscal

A base da expansão económica na segunda metade do século XX assentou naquilo que vulgarmente se designa por classe média. Trata-se de um conceito usado, muitas vezes, de forma vaga para caracterizar todo um segmento da população associado a determinado tipo de profissões, nível de formação e estatuto social. De modo mais rigoroso, a OCDE engloba nela todos os agregados familiares com rendimentos que se situam entre os 75% e os 200% do rendimento mediano nacional.

Foi o fortalecimento dessa classe que assegurou não apenas o crescimento das economias ocidentais no pós-guerra, mas também o desenvolvimento das respetivas sociedades, bem como a consolidação do modelo de democracia na qual fundamentam a sua existência.

Com o novo milénio e, em especial, após a recessão originada pela falência de importantes instituições financeiras norte-americanas e pela crise das dívidas soberanas na Europa, a classe média passou a estar sob forte pressão.

Há 30 anos, o rendimento global da classe média dos países da OCDE era quatro vezes superior ao rendimento agregado da classe alta; atualmente é menos de três vezes. No mesmo período, o peso da classe média no total da população caiu de 65% para 60%. Situação tanto mais grave quanto é sabido que, em especial após a Segunda Guerra Mundial, houve sempre a expectativa de que a geração dos filhos viveria melhor do que a dos pais.

A perda de importância da classe média não só criou instabilidade do lado da procura de bens e serviços, mas também reduziu o potencial de geração de talento e diminuiu a base de apoio a políticas inclusivas do ponto de vista social e ambiental, abrindo a porta a todas as formas de extremismo.

Sei que é preciso apoiar os mais desfavorecidos: os desempregados, a grande maioria dos reformados, aqueles que se encontram afastados do mercado do trabalho por motivo de doença, todos os que ganham salários baixos e com trabalho precário.

Mas também sei que se não houver uma classe média robusta, a economia não produzirá riqueza suficiente para apoiar os desfavorecidos. E a classe média, mais do que ajudas, precisa é daquilo que mais preza e ambiciona: estabilidade, segurança, oportunidades e, last but not least, de não ser asfixiada pela carga fiscal. Sem isso, o elevador social deixa de funcionar, as expectativas caem e o populismo tende a proliferar.

 

Carlos Brito, vice-reitor da Universidade Portucalense

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